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23/04/2019 às 21:20h

A (Vã)glória do passado

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Depois de meus 40 anos tenho recebido diretamente ou esbarrado involuntariamente com vídeos, mensagens, fotos e outras formas que enaltecem a forma que vivíamos nos anos 60, 70 e 80. Como que não morremos todos engasgados com as balas soft, como não nos envenenamos com a tinta tóxica dos berços que fomos colocados, de como não formos comidos por vermes quando brincávamos na lama, e tantas outras coisas. Exaltações de como caminhávamos quilômetros para chegar a escola. Felicitar com as brincadeiras de rua até altas horas da noite. Estas mensagens da internet se lamentam que como eram bons aqueles tempos e hoje tão ruim. A alegria de comer biscoitos de banha e hoje termos de nos submeter a sucos detox para manter a saúde.

Infelizmente tenho de discordar: aqueles tempos eram horríveis. Péssimos! Tomara que jamais voltem!

A taxa de mortalidade infantil nos anos oitenta era de cerca de mais de 150.000 ano e hoje não ultrapassa 30.000. A expectativa de vida subiu vários anos e os jovens de hoje terão uma velhice muito mais saudável que os idosos daqueles tempos. Querem que os jovens de hoje vão para a rua brincar como naquelas décadas passadas? Com a criminalidade que é fruto das políticas não praticadas por estes que hoje exaltam aqueles tempos? Com a imundice das ruas por estas mesmas pessoas que não educaram corretamente seus filhos nem no aspecto higiênico do coletivo? Jamais! O negócio é computador, netflix (exemplificativa de outas plataformas semelhantes) e sofá! Ao menos a internet substituiu aqueles míseros 16 volumes da Enciclopédia Barsa (16 incluído o índice). A netflix possui excelentes documentários que desmascaram a covardia que nos fizeram deturbando a história nas aulas que recebemos naqueles anos que insistem em chamar de bons. E o que falar das taxas de analfabetismo? Hoje somente não sabe ler e escrever quem de fato não quer!

Pessoa que conheço bem, hoje não tem condições de respirar pelo nariz porque arame farpado passou em sua face e foi curado com emplastro de sal grosso: “o que arde cura!” (Bastante medieval isso). Lembro-me e tenho pavor do dia que me recriminaram por ler demais e trabalhar de menos! (Queriam que eu fosse analfabeto?) Graças a meu pai e mãe que sempre me incentivaram a leitura, ainda um jovem imberbe tive a glória de ler boa parte da Biblioteca professor Melo Cansado (Pará de Minas). Quando hoje numa simples pasta do computador tenho acesso a uma dezena de milhar de obras. Para não falar das disponíveis on line.

Não... as décadas de 60, 70 e 80 definitivamente não foram boas.

De fato, brincamos com a "supremacia" das crenças desde que aprendemos a utilizar o fogo e inventamos a agricultura. Estamos brincando de ser deidades desde que decidimos nos livrar de um "próximo" - às vezes na base da porrada - que abusava da sua condição de ser próximo. Estamos brincando de ser deuses desde a invenção da medicina, ou da metalurgia. Cada geração ficou aterrorizada com seus correspondentes avanços. Mas é precisamente brincando de ser deuses o que nos tirou das cavernas e nos levou às estrelas. Em vez das idades do ouro passadas, o que sim podemos vislumbrar é uma flecha dourada que aponta sempre para o futuro. Qualquer um que estudar a história da humanidade à longo prazo, descobrirá que sempre estamos buscando o melhor. Logicamente que há períodos obscuros e sinistros, que pressagiaram que tudo ia desmoronar. No entanto essas ocorrências tem mais a ver com a ideia de um único tirano do que com o desejo das massas, que se deixaram seduzir pela ideia de supremacia, com base em conceitos tão estúpidos como raça ou divisão de classes. O resultado foi gente morta pela fome e pura carnificina. Há quem, por esta idealização estúpida, acredite que o passado foi melhor que o presente. Não foi! Para a maioria que viveu ali foi um inferno só aceitável porque, coitado, não conhecia nada melhor, mas se soubesse que chegaria um tempo em que poderia levar seu filho doente a um hospital onde existiriam médicos e enfermeiros de roupas impolutas, antibióticos, analgésicos, e tudo o mais, e que depois poderia levá-lo curado para casa para banhá-lo com água quentinha que sai diretamente de uma torneira, colocá-lo em uma cama sem piolhos, carrapatos ou pulgas, cobri-lo com uma manta com aroma de flores e dar-lhe de comer toda classe de alimentos e água filtrada tratada com flúor, ao certo pensaria que este só poderia ser o paraíso dos deuses benevolentes em suas profecias. Assim assinaria qualquer coisa para nunca mais sair daqui de 2019, mas não poderia. Não sabia assinar, coitado!

E uma montanha de distorções cognitivas estúpidas, começando pela distorção do sobrevivente: se nós estamos aqui para dizer que íamos 5 ou 6 num Fusca, Brasília ou Gordini, ou Mertiolate que ardia como ácido, ou que fizemos quaisquer cagadas sem medo de morrermos, não nascemos em buracos como Cuba, Coreia no Norte, vimos "Dancin' Days"... e estamos aqui para contar história é porque tivemos toda a sorte do mundo, mas muitos, que incorreram em erros estúpidos, não estão aqui para contar.

O passado é um belo museu onde entramos, achamos tudo bonito, mas depois saímos para a realidade da qual não podemos escapar que é de termos uma vida agradável e feliz. A nostalgia não tira o homem do lugar. A inquietude, o não se conformar que faz a (r)evolução!

Muito bonito lembrar do passado, e jamais o esqueçamos. Mas daí a dizer que era bom... ahh isto não!

Por Ronaldo Galvão


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