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24/07/2017 às 17:05h

A poderosa oração de Ruy Ortega

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_ Veado!

Ruy Ortega não entendia quando alguém gritava, dirigindo-se a ele como “veado”! Nem se importava quando faziam chacota do seu jeito de caminhar. Nem mesmo nas brincadeiras no recreio escolar, quando o chamavam de “boiola”, ele se reconhecia naquele apelido. Achava que tudo era coisa de meninos e meninas. Não dava crédito ao que desconhecia. Tinha nove anos, e tudo para Ruy Ortega ainda era infância, ingenuidade...

Mas, um dia, quando voltava sozinho para casa, umas pessoas maldosas, agrupadas em um lado da rua, criaram caso com Ruy Ortega. Riam e apontavam dedos, chamando-o de “veado” e “mulherzinha”. Naquele momento, sua inocência desfez-se de vez como um fogo que consome uma folha de caderno ainda em branco. Um constrangimento devastador alastrou-se por dentro dele; era o mesmo desconforto que sentia quando uma caneta vermelha riscava sua prova, expondo sua fragilidade de conhecimentos. Ao ouvir a palavra “mulherzinha”, compreendeu, pela primeira vez, o que significava “veado, boiola”.

_ Florzinha! – repetiam as pessoas maldosas.

De repente, ouviu uma palavra nova: “bicha”! Aquilo o atingiu de maneira mais agressiva do que um soco ou um chute violento o agrediriam. Ao virar a esquina, ainda podia ouvir aqueles insultos gratuitos.

Abalado, entrou em casa sem dizer “olá” e foi direto para o quarto. Olhou-se no espelho e percebeu, pela primeira vez, após a perda da inocência, que era realmente diferente de seus amigos: os olhos, o cabelo, o tamanho, a cor da pele, a unha ainda por cortar. Mas onde estava a “mulherzinha?”, perguntava-se em pensamentos. Por que não a via? Ele, ali refletido no espelho, era só perplexidade. Porque nem todo mundo o chamava usando aqueles apelidos. Muitos o tratavam por Ruy Ortega, menino inteligente, obediente, amigo, solidário, com boas notas em algumas matérias. Naquele momento, para ele, ser bom não era boa coisa. Para o mundo novo de crueldade que se abriu, ser mau e revidar violências, como forma de proteção, era uma opção de defesa. Não que quisesse ser mau, mas era preciso, por questão de sobrevivência...

Parecia que tudo se encaixava como um exercício de matemática.

_ Bicha!

.... As sessões com a psicóloga com suas abordagens vagas.

_Veado!

... A rejeição dos meninos nas brincadeiras no recreio, nas festinhas de aniversários, no clube...

_Mulherzinha!

... Os olhares indiferentes, os cochichos dos adultos.

_Boiola!

... Muitas vezes, Ruy Ortega preferiu isolar-se a ficar desconfortável em meio às pessoas. Tudo se revelava diante de sua imagem refletida no espelho. Dúvidas e perguntas embaçavam sua visão. Sem coragem para uma palavra de socorro, Ruy Ortega decidiu se fechar para tentar conter suas feridas, suas mágoas, seu desencanto. E descartou também qualquer possibilidade de práticas violentas, preferiu tentar encontrar outras soluções...


Sem saber como mudar a vida que lhe foi concedida, Ruy Ortega foi enfrentando cada obstáculo que a convivência humana lhe impunha. Para ele, era melhor sobreviver em meio à guerra do que fugir dela. Por fim, suas feridas emocionais causadas por pequenos gestos, olhares maliciosos, palavras e até por agressão física cobriram todo o seu corpo. Ele era realmente diferente entre tantos diferentes. Ninguém era igual, nem mesmo os gêmeos que conhecia.

O tempo foi passando, e Ruy Ortega, ferido, alvo fácil de quem lhe atirava injúrias e agressões gratuitamente, foi vivendo dia após dia, até que, por fim, descobriu sua própria arma de defesa: o amor próprio e a oratória. Passou a usar a palavra em sua defesa. Era leitor assíduo. Tinha vocabulário, argumentos, clareza e objetividade. Tornou-se seu próprio defensor e de tantos outros que, como ele, também sofriam bullying: a gorda, o magrelo alto, a negra, o sardento, o boa pinta, a patricinha, a calada, o voz grossa, o bom de bola, a chata, a esquisita, a meiga, o nervoso e até aquele que não se enquadrava em nada.

Agora, com um sopro de coragem de menino valente de doze anos, Ruy Ortega repete diariamente em pensamentos e palavras sua poderosa oração:

_Eu sou eu. Sou mais eu. Eu existo. Eu sou quem eu sou, e sou o que sou! Eu sou Ruy Ortega!


De José Roberto Pereira

Escritor / Artes Cênicas




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