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20/02/2019 às 20:14h

Amar sem tempo verbal

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Sempre.

É como uma oração. Sempre que ela se levanta nas primeiras horas do dia para ir ao banheiro, meu corpo escorrega para o espaço da cama onde ela dormira a noite inteira. Então me acomodo naquele lugar quente, tão impregnado dela depois de suas longas horas de repouso. Ainda sonolento, não ouso abrir os olhos e, semiacordado, sinto-a voltar à nossa cama. Seu corpo pesado rola sobre o meu e cai para o outro lado, aninhando-se em meus braços. Eu a comprimo tão fortemente contra mim que sinto que nos tornamos um só corpo. Aos poucos, o sono nos abate tão calmamente que nem percebo meus braços afrouxando-se.

De repente, tudo em mim desperta e a vejo ainda tomada por um sono profundo que chega a lhe causar suspiros.

Sempre, sempre é assim. Desde o dia em que nos conhecemos...

Então meus olhos e mãos passeiam por aquele corpo que é quase uma extensão do meu de tanto que decorei sua anatomia. Não me importam as formas arredondas devido à displicência na prática de atividades físicas. Não me incomodam os seios levemente caídos, as rugas na área dos olhos, pescoço e mãos. Os cabelos raleados pelo uso desregulado de químicas parecem ter sido exuberantes na época em que não nos conhecíamos. Os calos em seus pés não me causam repulsa em contato com os meus. Tudo nela me atrai, seduz e amplia meus desejos. Divirto-me, ao longo do dia, quando ela deixa nosso alimento passar do ponto, na panela, sobre o fogo. Isso a faz ficar balbuciando um vocabulário tão dela que fico petrificado, observando sua ladainha de lamentações engraçadas. E, se ela esquece algum compromisso importante, fica irresistivelmente brava comigo por não lembrá-la. Às vezes até me lembro, mas ignoro minha lembrança só para vê-la usando palavras inaudíveis consigo mesma. Irresistível. Esse cenário é o oposto do que durante anos busquei para mim. Cansei de expor aos olhos alheios mulheres de corpos perfeitos, com visuais tão surpreendentes que elas mais pareciam capas de revistas ao meu lado. Foram anos de relacionamentos frios, calculistas, de interesses equivocados de ambos os lados. Busquei tanto um mundo ideal para mim que se tornou impossível conseguir encontrá-lo. Meu nível ficou alto demais. Difícil de ser alcançado por qualquer pessoa que de mim se aproximava. Desci até onde não foi possível descer mais. Num certo momento, me vi complemente só. Rejeitado em detrimento da minha própria ambição de ter ao meu lado uma pessoa, a meu ver, que atendia meus critérios: perfeita. Nunca havia conhecido a felicidade como a que atualmente eu me oportunizo vivenciar. Desprezei por completo meu comportamento exibicionista que durante anos alimentei como se nutre um animal de estimação. Hoje já não me importa a aprovação alheia sobre quem está ao meu lado. Milagrosamente, eu me aprovo. Aceito-me como sou e aceito com quem estou. Estou indiscutivelmente feliz. Lamento não ter tido maturidade há mais tempo para entender que a felicidade estava em admitir a simplicidade da vida que me foi dada. Por ora, vivo como nunca vivi antes. Feliz no tempo presente.

José Roberto Pereira

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