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14/08/2017 às 16:54h

Anna Frígida

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Não acreditei quando dei de frente com Anna Frígida na praça central da cidade. Queria ver qualquer outra pessoa, alguma coisa de mau gosto, menos Anna Frígida. Fiquei atônito. Procurei rapidamente por algum espaço, uma área de escape, de escoamento... Nada. A praça era apenas uma passarela de concreto com canteiros em ambos os lados. Fiquei perplexo com aquela descoberta. Aflito, me perguntei quem seria o arquiteto responsável por aquele rio de cimento que oprimia os pedestres com suas margens. Que vontade de tê-lo ali em minha e perguntar-lhe: “como assim?”. Anna Frígida caminha em minha direção, encurtando a cada passo nosso contato. Queria desaparecer. Não tinha o menor interesse em ter contato visual com aquela pessoa. Agora, porém, o destino apresentava um possível contato verbal e, talvez, corporal. Era inacreditável que teria que cumprimentá-la como a uma pessoa educada. Pensei em negligenciar minhas boas maneiras e ignorá-la tal qual se despreza algo repugnante. Anna Frígida usava ainda a mesma fragrância enjoativa; já podia senti-la na corrente do vento... De repente, ela tirou os óculos escuros que usava e mostrou-se amável ao ver-me tão próximo. Estava estarrecido. Tremia, querendo não estar ali. Nunca fui bom em saídas estratégicas; caso contrário, já o teria feito. A imagem daquela mulher de sobrenome tão estranho trouxe com ela a lembrança de um tempo ruim... Frígida não era apenas um sobrenome, era um adjetivo vulgarizado, próprio de suas atitudes. Seu comportamento hostil, suas posições extremistas, sua maledicência sobre a vida alheia tornaram-na um ser humano desprezível, de difícil convivência. Sua negatividade para com tudo e com todos deixava o ambiente pesado, penoso, rarefeito. Era digna de pena. Conseguia se desentender com a mais doce das criaturas. Criava caso e provoca longas discussões, seguidas de desafetos. Provocava desentendimento em cadeia hierárquica... Há muito tempo não tinha notícias dela. Abandonei alguns lugares de convívio mútuo para não ser alvo de suas injúrias sem fundamento nem ser provocado ao extremo a ponto de partir para uma discussão descabida, sem propósito. Rígida, Anna Frígida estacou-se diante de mim, e pareceu que esperava um abraço. Mantive-me imóvel e surpreso. Frígida, então, caiu sobre meus braços. Surpreendido pelo ato, quase a deixei cair. Desabou a chorar desenfreadamente. Fiquei sem reação alguma. Subitamente, ela reduziu sua angústia a um gesto. Não precisei perguntar o que se passava. Anna Frígida mostrou alguns exames médicos sem usar palavras. Percebi, nos resultados, notícias tristes e malignas. Abracei-a como uma pessoa crédula que perdoa e releva fatos passados e ignora algumas cicatrizes. Acho que ela sentiu essa minha sentença. Desprendeu-se do meu abraço e continuou seu percurso. Olhei Anna Frígida de costas. Nutri profunda compaixão por ela e fiz votos de que ela não avaliasse sua vida até aquele momento para não se desesperar com o que poderia constatar. Senti nascer em mim um sentimento de pena. Fiquei ali, divagando a respeito das atitudes de Anna Frígida. Neste mundo onde há tantos de nós, cada qual diferente e com sua maneira de viver a vida, é interessante encontrar pessoas com comportamentos similares aos de Frígida. Mesmo com a grande dificuldade de estar ao lado dela, com Anna distribuindo dissabores, salgando e azedando a vida alheia e a sua própria, é importante ter pessoas assim à nossa espreita para fazermos um paralelo com a nossa própria vida, pensava eu. Anna Frígida seria, no reino animal, um tubarão ou um leão ou uma serpente sempre a nos manter alerta, despertando áreas que poderiam ficar adormecidas por longos anos ou por toda a vida. Conviver com maledicências é tão penoso quanto tratar de uma doença que vai nos degenerando pouco a pouco; nos convencendo, dia a após dia, a ver somente o lado bom da vida. Quis agradecer Anna Frígida pelo tempo vivido ao seu lado, mas ela tinha desaparecido no final do rio de concreto armado. Ela havia me oportunizado fazer uma autoavaliação: a de medir se minhas posturas e atitudes faziam alguém do meu convívio sofrer...

Por José Roberto Pereira

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