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11/02/2019 às 21:56h

As vovós de hoje

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Nadando hoje com minha netinha Sofia, de 9 anos, me lembrei de minhas avós. Era impossível, nos meus tempos de criança, nadar num clube com alguma de minhas avós! Nem pensar. Imaginei a avozinha de maiô, nadando na raia ao meu lado e eu tentando fazer as peripécias que ela fazia na água. Impensável!

Como pode uma tal mudança de minha infância para a infância de minha neta? Eu vivia nas grimpas das árvores, brincava com paus de lenha, folhas caídas, pedrinhas. Caixas de fósforos vazias viravam poltronas e papeis de balas e bombons viravam tapetes de nossas casinhas onde os personagens eram vidros vazias de remédios. Em Pará de Minas os brinquedos e brincadeiras eram separados de meninas e meninos. Meninas jogavam mariquinha, pulavam maré,andavam de patinete, brincavam de boneca e casinha. Os meninos jogavam bola, soltavam papagaios, brincavam com carrinhos de roleman, bolinhas de gude, lutavam entre si. Algumas brincadeiras eram comuns como pegador, ping pong, macaco disse e adivinhações.

Hoje as crianças brincam com legos, celulares e smartfones, vêm muito tv. Os bonecos existem aos milhares, para todos os gostos e tamanhos. Eles têm brinquedos demais e nem ligam muito para eles. Gostam de ficar entre adultos e não existe mais separação em brinquedos de homem e de mulher.

Pois eu sou grata por ter nascido no tempo em que nasci, pelos avanços que vi acontecerem na vida das mulheres e dos quais participo. Nadar é um detalhe. Eu danço, viajo sozinha para o exterior, vou à praia, tenho amigas, tenho minha família com quem me dou muito bem. Estudei em universidade, fui professora por 25 anos e me aposentei! Leio, escrevo, tenho interesse por outros idiomas, por outras culturas. Posso até escolher ficar grisalha sem causar espanto! Vivo o tempo de hoje!

Minhas avozinhas viviam em casa e de lá só saíram para casar. Uma delas até estudou magistério interna em colégio de freiras. Quando começou a trabalhar num grupo escolar teve que abandonar tudo quando se casou. No início do século XX era uma humilhação para um homem sua esposa trabalhar. As professoras em geral, eram solteiras.

A outra avozinha saiu de casa com 16 anos para se casar. Sabia fazer de tudo em uma casa, cozinhar, lavar e passar, costurar e fazer ótimas quitandas, mas não escolheu esta vida. Nem escolheu seu noivo! Era tudo arranjado pelos pais e avós!

A lembrança que tenho delas é sempre usando roupas compridas - saia justa e casaco - de cores discretas, mangas compridas, cabelos presos em coque. Nunca foram a um salão, nunca pintaram as unhas nem se depilaram; nunca usaram um batom ou qualquer tipo de maquiagem. Viviam em função de seus filhos e marido, da casa e da alimentação, das galinhas e da igreja. Tinham quantos filhos Deus mandasse. Podiam ser premiadas com dez ou mais. Nem todos sobreviviam pois, naqueles tempos não haviam medicamentos como os de hoje.

Tenho muito amor e carinho por elas. Sei o quanto elas me deram. Sei que mesmo hoje, muitas mulheres ainda vivem como elas viviam. Por escolha ou não!

A grande conquista das mulheres de hoje é a liberdade. Oxalá todas possam ter consciência de si mesmas e usufruir desta dádiva que é a vida.


Ângela Xavier

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