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03/09/2018 às 09:51h

Beijadora de moribundos

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Minha profissão é beijar moribundos. Na boca. Beijo mesmo. Qualquer um. A família entra em contato comigo e lá vou eu, arrumada de acordo. Se for homem idoso, vou de saia logo acima dos joelhos, meias finas, cabelos presos discretamente, com um par de brincos de pérolas legítimas. Nada que pareça vulgar. Do que, aliás, tenho pavor! Se o doente é um soropositivo terminal, vou com ares descontraídos: uma calça jeans nova, bem passada (senão parece desleixo), uma camiseta "Hering" branca, blaizer preto (independentemente do clima) e botas - cano curto - pretas. Batom, sempre de leve, nada de cores berrantes. Pintura no rosto, quase nenhuma, tudo para dar um ar natural ao encontro. Se for uma pessoa do meu sexo, aí a coisa complica muito. Não sou chegada a extravagâncias e só beijo mesmo se for moça, bonita e simpática. Mulheres idosas ainda não tive que atender - o que acho ótimo, porque fico com remorso, me lembro da minha mãe, e só de pensar que ela está me vendo com este novo trabalho, sei lá ... Se bem que minha mãe sempre foi muito generosa. Às vezes, caridosa também...

Mas vou contar como foi que tudo começou. O irmão de uma amiga minha morreu sozinho. Tinha 40 Anos o moço, dois filhos, e a mulher saiu para comprar uma fruta, ela estava morta de fome, mas não queria deixar o marido só. Eu estava visitando o casal e me propus a ir comprar a fruta para ela. Laura recusou e percebi que ela queria mesmo era esticar as pernas. Eu não o conhecia, era seu novo marido, tinham voltado da Grécia (ela o conheceu lá) e, tão logo chegaram ao Brasil, começaram a peregrinar por hospitais, magos e curandeiros. Nada resolveu e acabaram levando-o para o leito daquele hospital triste e escuro. Laura não voltava, o dia já escurecera, e eu ali vendo-o respirar Com dificuldade, comecei a andar pra lá e pra cá, numa agonia sem fim. Percebi que ele ia morrer, não sei porquê, pois nunca tinha visto alguém à beira da morte. Mas percebi e corri ao seu alcance. Achei que ele queria dizer algo: tentei escutar, ele segurou minhas mãos, eu, aflita, agachei e, próxima, vi seus lábios se mexerem como se quisessem água, ouvidos, boca. Cheguei bem perto e não resisti: dei-lhe um beijo leve e passei minha língua em seus lábios secos. Imediatamente fui saindo aos poucos e, observando seu rosto, vi uma suavidade maravilhosa em seu semblante. A fisionomia foi-se transformando e, em segundos, senti a sua respiração acalmar, até que ele deu o último suspIro.

Quando Laura chegou, resolvi contar-lhe tudo, e ela, agradecida, beijou-me com carinho e alegria. Disse-me: "Você deu muita alegria a ele. Ele morreu em paz. Obrigada, amiga! ... " Comovida, decidi que a partir daquele dia seria esta a minha profissão, e de muito bom grado, porque morrer sem companhia era uma cena que eu nem gostava de imaginar. Assim daria alegria a muitos moribundos: beijar, ser beijada era das coisas de que eu mais gostava, e poder fazer isso por alguém só me deixava aliviada.

Nunca pensei que fosse ganhar tanto dinheiro. Imaginei que iria ser procurada e, por vezes, mal interpretada, mas ganhar rios de dinheiro não era a meta
principal da minha boa ação. Comecei a ser chamada quase que diariamente e minha profissão principal, que era a de tradutora, ficou pra lá: mal tinha tempo
de me dedicar no computador. Passei tudo para minha irmã, que acabou ficando com os meus clientes: vários cursos de inglês-francês-alemão-espanhol. Novamente eu pensava em mamãe: só de imaginar que ela podia me recriminar... Afinal, estudei anos e viajei mundo para me aperfeiçoar em línguas... Sem trocadilhos: agora eu estava usando outra ‘língua'... Mas fatos engraçados começaram a me acontecer: fui chamada para atender um alcoólatra, 20 anos, estado de coma total. Senti-me o próprio "príncipe", ex-sapo: o moço ficou bom. Bonzinho da silva. A mãe não acreditou, queria me contratar para ficar ali ao seu lado, dando assistência.

Expliquei tudo direitinho, mas não teve jeito: a mulher ofereceu-me muitos dólares. Mas não era pouca coisa, era muito dinheiro. Resolvi aceitar. O moço parou de beber, ficamos noivos, casamos e tivemos dois filhos. Temos dois filhos: Alexandre e Eduardo, que hoje têm 18 e 17 anos, são lindos e jogam vôlei e basquete, respectivamente...

Tantos anos se passaram, mas não deixei de beijar moribundos. Vou uma hora pra uma casa, outra hora para um hospital, levando alegria para quem está de partida. Só uma coisa preciso explicar com uma certa tristeza: fiquei viúva ano passado e, quando chego ao hospital (meu marido sofrera um acidente de carro terrível e fatal), encontro uma moça de vinte e poucos anos beijando-o por mim. Não falei nada. Fiquei foi pensando como tudo nesta vida passa. A gente tem é que saber aproveitar a nossa hora.

Malluh Praxedes (do livro “Viu, querida?” e “Mulheres na Linha”)


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