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05/09/2018 às 09:42h

Beijos de ascender o dia

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Autora: Malluh Praxedes

1 BEIJOS DE ACENDER O DIA

Pode ser que comece assim: eu tomo banho primeiro, visto apenas uma seda por cima do corpo ainda molhado e volto pra cama. Uns pingos dos cabelos caem sobre seu corpo nu e eu me deixo ali mesmo atrás de seus beijos. Ou ainda assim: ele vai se lavar e fica cantando a alegria de nossa noite feliz. Mesmo não sendo Natal estamos trocando presentes: jantamos juntos e pegamos um leve porre e caminhamos pelas ruas divertidas de Santa Tereza. Ele entra no quarto me chama duas vezes e eu completamente sonolenta assisto a um strip-tease de perder o fôlego. Socorro, eu grito bem perto do seu ouvido. E pode ser que eu o beije por inteiro. Ou que ele compreenda a minha preguiça e me provoque com seus beijos.

Ah! As manhãs são tão sutis!...

2 DEDOS E DENTES

Tenho em mim nem uma vontade de me casar – desde que fiquei viúva de um amor que nunca foi meu. E hoje, passados bons anos me relaciono com dois homens: um, um tanto mais jovem, o outro um pouco mais velho. Este, quando passamos o fim de semana juntos, mata-me de tanto rir, passeamos muito, trepamos pouco, trocamos idéias e carícias. Levanta cedo e me prepara o café na mesa, antes do nosso banho quente. O mais moço, quando temos dois dias só para nós vai me experimentando beijos, ardendo meu corpo, invadindo buracos e, quando nossa alma já mal consegue respirar aproveita pra fazer poemas entre dedos e dentes. Ainda não tomamos um banho sequer juntos.

3 DOMINGO

Ele ficou de chegar na quinta, me avisou na terça. Nem sexta, nem sábado. Foi no domingo que o porteiro avisou: - Ele está aqui, pode subir? – Pode sim, eu falei com o coração na mão. Fui ao espelho retoquei o batom, soltei os cabelos e fui tirando a roupa. Nua. Era assim que eu queria falar pra ele da vontade que eu estava sentindo de fazer amor, de falar de amor, de morrer de amor... A campainha tocou duas vezes e eu respirei mais uma. Num gesto rápido e certeiro abri a porta totalmente pra esquerda e de olhos fechados me deixei ser vista assim, de corpo e alma... Calma, esperei seu corpo vir cobrir o meu. O silêncio foi tão assustador que meus olhos não acreditaram no que viam: - o filho dele ali jovem e belo incrédulo me calava a boca. Por trás, bem ali atrás ele, que me fez esperar até àquela hora, na hora de nossa morte. Amém.

4 ESCANCARADO CORAÇÃO

Eu não tenho medo de amar. Nenhum amor pode apavorar, meu amor, eu te amo! E amo desde o jeito que sei: na linha do Equador, trepada num coqueiro, debaixo da lama, em cima da rede, no balanço das águas, sentada na lua, meu revirado coração... Se eu sou assim é porque você me deita completamente à vontade contigo. E eu fico periodicamente feliz. Perplexa por um triz. Nas tardes de um mês abril, nas rimas de um sábado qualquer, febril no cobertor deixado em tapete... E no colar de seus braços, abraços... Não sei ser de outra forma, nem naquele instante de outro alguém. Eu me desfaço inteira em pedaços pra você me recolher. Simplesmente hoje pela manhã ou completamente amanhã à noite. Bem tarde me cedo como você me quer. Eu me reporto, eu me reparto: um quarto pra nós, na sala uma canção e na cozinha improvisamos coxas, corpos, bocas, olhos e sonhos em calda quente, nessa sensata elegia...

5 “OS MORTOS SÃO TÃO IGUAIS. A VIDA É QUE NOS FAZ DIFERENTES.” (Luís Giffoni)

Ele, mesmo assim, estendido e imóvel não escondia sua beleza constante. Eram impressionantes seus olhos tristonhos – tinham o mesmo frescor daquela alegria absorta. Confesso que sentia paixão absoluta cada vez em que velava seu sonho. Depois do banho tomado, acariciá-lo freqüentemente, solenemente, velozmente, vagamente, me fazia gemer, tamanha a felicidade em recolher com a língua cada gota que escorria vagarosamente naquela preguiça de qualquer segunda-feira… Pra lá das nove o telefone tocou e corri para entender o que acabara de acontecer. Aquele silêncio doía em meus olhos e meu coração não conseguia parar de bater em descompasso. A voz veio fria e seca, senti a cor da solidão. Vi cada pedaço do que despencou em mim. Não dava pra rimar, remar, calar. Quem poderá me explicar aquele gosto tão igual a nada? Simplesmente amanheci, suponho.

6 PÓLEN

Então eu combinei com ele assim: - Vem que eu te espero. E ele encomendou meu sonho e eu fiz o pedido da pizza. O vinho veio junto e também a esperança. Sentamos à mesa e a cada fatia, eu ia perdendo o medo de degustar com prazer aquele novo gosto de rúcula. Amar estava sendo muito excitante... Quando fomos para a cama o sono já não nos perturbava mais. Os travesseiros nos escapavam. Não me lembro de cobertores. Os lençóis escorregadios descolavam nossos beijos avassaladores. Quem nos visse seria capaz de jurar que havíamos nascido desde sempre assim.

7 RITMOS

Bastou ele me dizer que havia se separado pra eu me casar novamente com ele. E desta vez não doeu nada. Ele agora era um homem pra lá de experiente: o filho já vivia fora do País havia tempos. A primeira mulher foi um estrago na família inteira. A beleza, o dinheiro, o sucesso, as drogas e o filho, claro. Mas nem bem nos livramos disso, sei lá que horas eram quando eu o vi me deixar de novo. Agora a moça era outra: educada, divertida, querida. Aí a barra pesou; nossos encontros foram ficando cada vez mais espaçados, nossas rimas diluídas. Nem bem começou a quinta-feira e ele voltou com a mesma alegria, o mesmo carinho confortável e aquela canção no ouvido. Desta vez fui mais severa comigo: - Vá devagar, menina!... Mas quem falou que eu me dei ouvidos?

8 TEU CHEIRO EM MEU LENÇOL

Ele nunca prestou atenção em minha mania de lingerie preta. Sempre gastei horrores com calcinhas transparentes e sutiãs de bojos sofisticados com rendas francesas e grifes italianas. A pressa sempre foi sua inimiga mor. Sua não, minha. Porque acabo gastando os tubos, mas o cara tem lá seus encantos. Delicado pra atacar – o que sempre me encantou num homem, fala meio mansa, olhar certeiro, mão ágil, um susto sempre gostoso. Com algumas manias que eu detesto toda hora: faz isso, amor, faz... Nunca gostei dessa parte da história. Quando eu olhava, olha o cara lá parecendo um ventilador, jogando tudo pelos ares. Minhas mãos desorientadas saiam catando os estragos do rapaz: não, não e não me peça mais, por favor! Era a ladainha de todas as noites regadas a Cavalo branco. Poucas foram as vezes em que conseguimos enfiar nossos corpos nos lençóis. Ah! Os lençóis... Seu cheiro nos lençóis é a melhor parte de nossa vida. Foram anos a fio tecendo cada cor daquela imagem. Como uma frase nova de uma música que parece antiga: sempre uma surpresa inesquecível. E assim ele foi deixando seu cheiro nas fronhas, no meu pescoço, na toalha branca, naquela estrada turva e essa saudade intensa.

9 TROCO

Eu já estava me sentindo assim meio repassadora de entusiasmo. Aquela coisa de já ter marido grisalho e filha mais linda do que você. Aquela história de marido querendo te trocar por uma mais nova e mais sedutora... Pois não é que conheci um gato pra lá de bonito e nem pensei duas vezes: deixei meu quarentão e fui à luta – agora namoro um garotão. Sabe que fica mais barato? Mais academia, menos terapia. Carro do ano, coitado o cara fica pra lá de satisfeito com meu Ka 99, gosta mesmo é de jeans rasgado, aquelas camisetas promocionais, fica feliz da vida com um choppinho no happy hour, nem liga pra família, não dá mole pras minhas amigas e trepa que é uma beleza: nunca deixa de gozar. Por que agora eu devo admitir: adoro ver o carinha gemendo sem dó nem piedade. Pode ficar com o carro no fim de semana, baby, pode levar suas garotas pra passear, não ligo não. Eu quero mesmo é te arrastar pela casa inteira. Cansei de ser cara-metade.

10 UMA HORA PARA AMAR

No seu lado esquerdo ele pousava meu rosto. Depois me acariciava por partes para, em seguida, com delicado tremor colocar meus lábios de encontro aos seus. Nossos corações galopavam quentes e ansiosos. Passeávamos por novos medos, desejos e coragem. Comer, lamber, beber, cheirar, tocar, trocar, pedir, deixar, deitar. De uma hora para outra, uma capa descortinou a alma. Calma, senti um beijo selando aquele instante. Se faltou um final, fomos felizes: “Ah! A chuva. Com ela me cubro e em ti me descubro outra.”

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