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25/04/2018 às 16:10h

Chantagem

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O pai entrou, de supetão, no quarto do filho. Surpreendido, o filho indagou:

_ Pai! O que houve? Está tudo bem?

_ Sim, tudo bem.

 _ O senhor quer conversar? É algo sério? Quase nunca vem ao meu quarto.

_ Não. Quer dizer... É. Preciso, sim, ter uma conversa com você – disse o pai, com certa ansiedade e despreparo para aquele bate-papo.

_ Tudo bem. Aqui no meu quarto ou na sala?

_ Quanta pergunta, meu filho! Assim você torna as coisas mais difíceis. Aqui mesmo. 

_ Então sobre o que deseja conversar?

_ Calma! Não faça pressão. Para mim é complicado falar sobre certas coisas.

_ Pai, não enrola. Fiz algo de que o senhor não gostou? 

_ Não. Não atropele a conversa. É outra coisa. Sabe, meu filho, a gente quase não conversa direito. Então fico acanhado. Mas eu sou seu amigo. Você sabe disso e tal...

_ Tal? Pai, você nunca falou gíria. O que está acontecendo?

_ Você está me deixando tenso, filho! Existem assuntos que devem ser tratados cautelosamente para que não haja interpretações equivocadas...

_ Pai, o senhor entrou no meu quarto umas duas vezes na vida. E agora está aqui com essa cara...

_ Cara? Que cara? Respeita seu pai.

_ Vamos direto ao assunto? Ou quer deixar para outra hora? 

_ Tem de ser agora. O tempo passa rápido, e quando se vê... Bem... Bem... Você já está namorado?

_ Pai, tem oito meses que a Debinha vem aqui. Já a apresentei como nora.

_ Pôxa! Puxa vida! Oito meses? Muito tempo. Então vocês estão namorando, namorando mesmo? Não é só “ficando”?

_ Namorando, pai. Então?

_ Então o quê?

_ O que o senhor quer comigo?

_ Você está namorando há oito meses e ainda não foi à casa do pai da moça pedir a mão dela em namoro? Seja homem, meu filho. No meu tempo, não era assim. Para namorar, os pais tinham que consentir a união.

_ Pai. Todo o mundo já sabe. Eu durmo na casa dela. Ela dorme aqui em casa. Muito raro a gente dormir separado.

_ Puxa! Abafado aqui. Então... Como assim? Dormem...

_ É sobre sexo que quer falar comigo?

_ Não. Não era. Mas agora vai ter que ser.

_  Pai, já somos adultos. Já passamos dos dezoito anos...

_ Meu Deus! Meu filho, eu fui tocar na sua mãe uma semana depois do casamento. 

_ Uma semana?!

_ Sim. Uma semana. Sou muito ansioso, você sabe disso. Todas as vezes que via a coisa, eu tinha uma crise de riso e coceira. Um horror, para não dizer constrangimento. Tudo se resolveu graças a sua mãe, que emendou minhas meias e vendou meus olhos. Foi só depois dessa ideia brilhante que tudo aconteceu. Até hoje tenho uma venda que resolve o problema. O que não se vê não tem graça. Não é mesmo? Ai, ai! Só de pensar naquilo já me dá coceira. 

_  Se era isso, já está dito!

_ Não. Filho, converse com sua mãe e a convença de deixar seu pai ir pescar. Amo pescaria. Interceda por mim. Sua mãe vai ficar uma arara se eu pedir isso  a ela. Ela manda em tudo nesta casa. Não me obedece. Veja bem, ela me obriga a vestir esse pijama listrado ridículo só porque é igual a um que o Richard Gere usou em um filme. Vamos nos unir, filho. A coisa está ficando feia. Essa mulherada está dominando o mundo. Usam o tal empoderamento contra nós... Tenho até pesadelo só de pensar em sua mãe se lembrando do filme A Lagoa Azul e me obrigando a usar uma tanga daquela...

_  Pai. Uma coisa é sua relação com a mãe. Outra coisa são as conquistas femininas...

_ É tudo farinha do mesmo saco. Filho, por favor, faça isso. Eu estou mandando. Ou eu contarei para sua mãe que você já dorme com sua namorada.

_ Ela já sabe.

_ Assim fica difícil fazer chantagem hoje em dia.

_ Convidar a mamãe para ir pescar com você poderá ser um bom início de conversa, pai.

O pai saiu do quarto do filho, atordoado e mudo com a sugestão simples e objetiva para a resolução do seu problema. 

Por José Roberto Pereira

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