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26/08/2019 às 09:14h

Conrado Kamiensky

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Um dia meu pai, Zezinho Xavier, chegou em casa empolgado dizendo que estava estudando inglês com um polonês que morava em Tavares, pequena localidade perto de Pará de Minas. Fiquei curiosa. Um polonês morando em Tavares? Era o ano de 1960. Eu adolescia descobrindo algo a cada dia. Meu pai contou que o Sr. Conrado havia fugido da guerra para a França e lá havia conhecido sua esposa Ivone. Os dois fugiram assim que Hitler invadiu a França.

Meu pai começou a estudar inglês com ele juntamente com várias pessoas da cidade. Com estas aulas ele foi fazendo um círculo de amizades, muito também pela sua simpatia.

Um dia conheci o Sr. Conrado. Ele bateu à nossa porta vendendo verduras. Viera de Tavares ao Pará de bicicleta. Tudo aquilo era inédito demais para mim. Fora de qualquer padrão.

E as surpresas não pararam por aí. Fomos convidados para ir à sua casa. Era uma casa ampla e bonita, as janelas grandes e baixas, rodeada de flores. O que chamou mais minha atenção foram os objetos que a decoravam: tapetes das Antilhas, esculturas e uma série de coisas que eu nunca havia visto antes. Ao perceber minha curiosidade ele explicou que aquelas eram lembranças de todos os lugares por onde eles passaram antes de chegar ao Brasil.

Sentados na sala de visitas ele elogiou o Brasil e disse que ninguém deveria reclamar que o presidente João Goulart era isso ou aquilo. Que aqui era um paraíso. Em seguida fez um relato chocante das duas guerras mundiais que atingiram seu país. Na primeira guerra morreram seus pais e tios. Na segunda, todos os seus irmãos. O mais novo estava com a tropa em determinado local quando chegaram os alemães. Seus companheiros escaparam pelo mato, mas ele estava dentro de um rio e não pôde sair. Os alemães acamparam ali mesmo. Para respirar dentro d´água, ele conseguiu um ramo oco que colocou na boca. Pensava que os inimigos sairiam logo e ficou imóvel. Seu tormento durou três dias e ele foi resgatado com vida e levado a um hospital, mas não resistiu.

Ele mesmo foi ferido na frente de batalha, o que foi a sua salvação. Fugiu para a França. Percorreu, junto com a esposa Ivone, vários países do Caribe antes de chegar ao Brasil. Em Belo Horizonte haviam conhecido Juscelino Kubitscheck. D. Ivone dançou com ele numa festa!

O casal, sem filhos, adotara duas crianças brasileiras: Maria e Carolina.

Depois deste forte relato de vida, o Sr. Conrado colocou na vitrola um disco de música clássica, apagou as luzes e nos chamou a recostar na poltrona para apreciar em silêncio. Foi neste momento que eu passei a apreciar os clássicos. Tudo na vida tem uma iniciação.

O Sr. Conrado fez muitas amizades em Pará de Minas e, entre elas estava a minha família.

Certa vez, ele apareceu em nossa casa para ensinar a fazer o pão de sal que, segundo ele, era feito pelas famílias polonesas toda manhã. Rodeado pela minha mãe e por nós, as jovens da casa, ele fez um pão de forma delicioso. Minha mãe anotou a receita que consta dos cadernos de receitas de todos os irmãos.

De outra feita fomos convidados a ir à sua casa na véspera do Natal para uma confraternização. D. Ivone havia feito um ponche, colocado numa grande tigela e que foi servido a todos com uma concha. Havia na mesa, é claro, pães caseiros. Então, o Sr. Conrado pegou uma fatia do pão e partiu um pedacinho que entregou a sua esposa dizendo o quando ela era importante em sua vida e desejando felicidades. Em seguida foi fazendo o mesmo com o meu pai, exaltando aquela amizade que ele tanto prezava, a minha mãe e com todas nós ele dividiu seu pão desejando amor e amizade. Ritual simbólico e muito emocionante. Depois foi servido o jantar. A festa terminou com música alegre quando todos dançaram. Ele convidou minha mãe e papai convidou D. Ivone. Foi uma noite inolvidável.

Pensei neste homem, nesta família tão carismática que marcou as vidas de quantos com ele conviveram em Pará de Minas. Depois de um tempo eles se mudaram para Belo Horizonte. Nunca mais soubemos notícias deles nem de suas filhas.


Ângela Xavier



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