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12/07/2019 às 09:00h

O Circo

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Um circo é algo fantástico, principalmente para quem foi criança nos anos 50 quando não havia TV, cinema só de vez em quando.

Quando o circo chegava a Pará de Minas, ele era montado na Várzea e a criançada acompanhava tudo, desde a montagem da lona até o cuidado com os animais e no final da temporada já estava amiga de todos os componentes do circo.

A propaganda para atrair o público era um espetáculo à parte. Lembro-me de um circo que desfilou com seus astros pelas ruas da cidade e eu, pequena ainda, via tudo dependurada na janela da casa da vovó Lilina, na rua São José 389 (onde hoje está o Supermercado Panelão). Desfilavam girafas, ursos e leões dentro de suas jaulas, cavalos enfeitados com acrobatas se equilibrando de pé sobre suas montarias. Uma girafa parou para comer as folhas tenras de uma árvore que havia em frente à casa do tio Tavinho Xavier, a última casa antes de subir para o jardim da prefeitura. A girafa parou o cortejo todo e ficou mastigando as folhas satisfeita.

No cortejo desfilavam também elefantes e uma moça de maiô brilhante era apanhada pelo elefante, pela tromba, e colocada em cima dele. Depois vinham os palhaços dando piruetas, o mágico com sua cartola de onde saiam sempre coelhos. E mais os trapezistas, os atores, os malabaristas jogando suas bolas para cima, chipanzés vestidos como gente e uma pequena orquestra. Na frente, o apresentador vestindo smoking colorido, tirava o chapéu saudando a todos. Ninguém perdia um espetáculo como este.

Meu tio, Mário Leite, contava um episódio muito interessante acontecido na passagem de um circo quando ele era ainda menino pequeno. Coisa do início do século XX quando havia ainda muitos ex- escravos na cidade. Um antepassado, Antonio Leite Praça, português, era o proprietário de uma fazenda grande no caminho para Belo Horizonte, onde há uma lagoa, já foi da Divinal e hoje não sei de quem é. Ele tinha 40 escravos e casou-se com uma mulata de nome Matildes. Quando houve a abolição ele recebeu a notícia pelos jornais que vinham do Rio de Janeiro no lombo de burros, com dois meses de atraso. Reuniu seus escravos e deu-lhes a notícia, deixando que resolvessem o que fazer de suas vidas agora que eram livres. Ex- escravos não tinham lugar na sociedade e eles não queriam sair dali pois eram bem tratados. Assim o tio Mário chegou a conhecer quatro desses ex -escravos já velhos ainda moradores da fazenda. Seu Cornélio era um deles e usava vários anéis em cada dedo. Uma vez, o circo chegou à cidade e desfilava pelas ruas com todo o seu elenco. De repente, um elefante pegou seu Cornélio pela tromba e o jogou longe. No hospital, todo quebrado, se recuperou. O povo disse que ele fora reconhecido por um seu conterrâneo.

Circo cheio, meninada e adultos dependurados nas arquibancadas, comendo pipoca ou chupando pirulito de mel esperavam o início do grande espetáculo. O show sempre começava com a entrada dos palhaços fazendo rir a todos enquanto o cenário do próximo número era montado.

Palhaço famoso, nosso conterrâneo foi o Benjamim de Oliveira. Benjamim do Malaquias, como era conhecido. Filho de família pobre da Várzea fugiu com um circo e se tornou palhaço. Meu pai, Zezinho Xavier, se lembra de um show onde ele se apresentava com sua filha Jussara e cantava:

“Eu vi você bulinar Lili, eu vi,

Fiquei muito admirado

De ver você beijando o namorado”

Benjamim inovou o espetáculo circense com peças teatrais, números cômicos, números musicais, numa tentativa de fazer frente ao cinema que crescia muito. Ele se apresentava também no Ideal Cinema, o cinema do Juca Ferreira. Sempre, ao chegar ao Pará, ele abraçava e beijava o coqueiro que havia defronte da valha Matriz de Nossa Senhora da Piedade.

Um personagem de que me lembro muito e se apresentava no circo e nos teatros era o Delmário. Ele falava um monte de bobagens e piadinhas e cantava com uma sanfona:

“Eu tinha uma vizinha

Uma veia sorterona,

A veia num parava

De tocar sua sanfona:

Nheco, nheco, nheco,

Essa veia é de amargar,

Nheco,nheco, nheco,

Ela num para de tocar.

E a música prosseguia fazendo todo mundo rir. O circo ficava lotado sempre que o Delmário se apresentava.

O circo Irmãos Elias ia sempre ao Pará.. Os donos eram da região mesmo e toda a família trabalhava no circo. Lembro-me de um número incrível com vários irmãos e irmãs acrobatas que saltavam um após o outro e iam se aparando. O menor era uma criança de uns 6 anos. Incrível! Este circo, como muitos outros de pequeno porte, foram desaparecendo com o surgimento da televisão. Dizem que a dona do circo ficou doente, sua vida não tinha sentido, quase morria de tristeza, pois não se acostumava com a vida fora do circo. Então, seus filhos resolveram comprar um pequeno circo para ela. Eu cheguei a ver essa senhora, já velhinha, à frente do seu circo, se apresentando pelas cidades do oeste mineiro.

Os números das feras eram emocionantes. Os leões saltavam arcos de fogo, rugiam e deixavam o domador colocar a cabeça dentro de sua boca, para horror de todos nós. Ele ficava o tempo todo com um chicote na mão, batendo com ele no chão e um banco na outra mão servindo de escudo.

Os mágicos encantavam a todos. Tiravam coisas incríveis da cartola. Dos bolsos, faziam objetos desaparecerem e depois surgirem nos locais mais inusitados. Colocavam aquelas mulheres de maiô brilhante dentro de uma caixa e enfiavam espadas por todos os lados, no maior suspense. Depois de mostrar que não havia nenhum canto sem espada, ele ia tirando uma a uma e abria a caixa de onde a mulher saia ilesa em meio aos suspiros de emoção da platéia. Outras vezes, a mulher era deitada numa caixa comprida como um caixão. Essa caixa era fechada e o mágico a serrava ao meio e separava as metades mostrando ao público. Depois juntava as metades e abria a caixa de onde a mulher saia como se nada tivesse acontecido.

O circo fazia parte de nossa vida, do nosso dia a dia enquanto estava na cidade. Era o sonho tornado realidade. Um sonho possível apesar de inusitado.


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