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20/03/2019 às 20:13h

O dia em que o dragão matou Jorge

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Desconfio que o dragão matou mesmo meu tio Jorge. Foi no dia em que minha avó Lútice visitava sua mãe, Cristina, minha bisavó, em Pará de Minas. Vó Lútice se esqueceu do tempo e se perdeu nas horas. Era uma quinta-feira do ano de 1969. Na ocasião, estava festiva, grávida de 9 meses, prestes a dar à luz seu décimo segundo filho, a quem chamaria de Jorge. Naquele dia, quando deu por si, viu que o tempo havia voado. Surpreendida com o tardio das horas, saiu ligeira da casa materna. Pegou o filho caçula, João, de 3 anos de idade, e correu em direção a uma rampa de terra batida que ligava a casa a um portão que dava acesso à rua Melo Guimarães, no bairro Nossa Senhora de Fátima. Com a barriga enorme, o chinelo carcomido, gasto pelo uso frequente, foi uma armadilha certeira. De repente, ela se viu no chão, sendo arrastada pelo impulso do corpo, com a barriga raspando a terra da rampa íngreme. Sentiu uma dor aguda, mas não gritou para não alarmar sua mãe, que assistia a tudo, perplexa e impotente. O filho João chorou ao ver mãe estendida no chão. Com expressão de “tudo bem”, a filha de 40 anos de idade se limpou, pegou o filho caçula, despediu-se da mãe e se foi. Ainda assustada pelo ocorrido, conseguiu tomar a condução. O vestido ficou sujo de terra. Escoriações pelos braços e pernas denunciavam o acidente.

_ Deveria ter ficado com a mãe e ido a um hospital!, disseram algumas pessoas, dias depois.

Mas não. Minha avó Lútice pegou um ônibus precário e viajou por cerca de uma hora e meia sacolejando pela estrada de terra que ligava Pará de Minas a Cana do Reino, zona rural de Onça de Pitangui. Depois caminhou por cerca de 30 minutos, carregando o filho João e algumas compras, subindo um resto de serra íngreme até chegar à sua casa em meio à capoeira, um trecho de brejo e pastagem de gado. Silenciosa e com dores, não contou o ocorrido ao meu avô Chico Honório nem aos filhos maiores. Fez o jantar e foi se deitar. As dores se intensificaram no dia seguinte, no outro, até que, no terceiro dia, ela desconfiou que a criança estivesse morta. Nesse terceiro dia teve um parto difícil e traumático como se o feto tivesse sido estilhaçado pelas garras de um dragão. A criança iria se chamar Jorge em homenagem a São Jorge. Mas chegou sem vida ao mundo.

O luto seguido de depressão cobriu seus dias, meses e alguns anos. Aos poucos, um conjunto de fatores foi minguando sua saúde. Sua alegria, seu falatório, marca de sua personalidade, foi dando lugar a um silêncio que era difícil de disfarçar. Não se sabe se por remorso por não ter buscado oportunamente ajuda médica ou pela tristeza de não ter dado à luz um menino cujo nome seria uma homenagem ao santo que tanto estimava. Sentia a casa vazia, mesmo cercada pelos 11 filhos que tinha. Em outros tempos, gostava muito de festas, barulho e rezas. Mas andava apreciando certo isolamento, coisa de que nunca gostou.

Como se não bastasse, outra tragédia veio se abater sobre ela, anos mais tarde. Inacreditavelmente, o dragão mostrava-se terrível, implacável, determinado a cumprir sua sina reptiliana. Um acidente horrível de carro vitimou um filho seu adulto, cujo nome também homenageava um santo, Sebastião, levando-o a óbito. Martírio e dor. Depois disso, não houve mais trégua. Intimamente tudo ficou mais difícil e sufocante, como se o dragão se agigantasse dentro dela, queimando suas últimas resistências. Por fim, meses depois do acidente automobilístico, aos 47 anos de idade, deixou-se ser vencida por aquilo com que não podia lutar mais. Como seus filhos Jorge e Sebastião, teve a vida interrompida. Partiu tão cedo, tão jovem que permanece a sensação de que ela ainda está em um ônibus precário viajando de volta para casa.

Durante boa parte da minha vida, depois de saber desta história, passei a ter a sensação de que tio João, que era cinco anos mais velho que eu, mantinha no olhar meigo e carente um foco discreto no horizonte, à espera de que sua mãe, minha avó, voltasse para casa trazendo Jorge nos braços. Talvez meu tio nunca tenha assimilado o ocorrido. Ele também partiu cedo, um ano antes de atingir a idade que sua mãe tinha quando se foi definitivamente.

Fico pensando se é por isso que São Jorge mantém o dragão preso bem debaixo de seus pés. Para que aquele animal repugnante não devore mais ninguém.

Por José Roberto

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