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08/08/2018 às 13:31h

O homem aprisionado

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Por decência e educação, eles não partiam para a violência física. Ficavam irritados quando uma tentativa de diálogo entre eles era conduzida com indiretas.

Ele nunca imaginou que sua vida se resumiria à situação degradante em que se encontrava. O futuro não lhe mostrava perspectivas positivas, e ele estava prestes a explodir como uma granada que fere e destrói tudo em seu entorno. Afundava em longas horas divagando, tentando ter forças para findar seu casamento.  Desejava sair pela porta da sala e gritar que nunca mais votaria. Sob quaisquer argumentos, não regressaria àquele inferno conjugal.

Nos primeiros meses juntos, viviam em lua de mel. Era só entrar em casa que ela o recebia, despudoradamente, e tudo se transformava em prazer, amor, prazer, amor, fome e afagos. Logo, veio o primeiro filho. A inexperiência de ambos com o recém-nascido criou barreira e certo distanciamento. Um bebê demanda tempo e dedicação. Depois, outro filho, sem planejamento.  Um susto. Palavras de acusação foram ditas rispidamente sobre o descuido... As despesas domésticas passaram a ser um membro irritante da família.  Para ele, tornou-se penoso voltar para casa. Para ela, era incomodativo quando se aproximava a hora em que ele retornaria.  Os filhos eram o que ainda os mantinham juntos.

Ocasionalmente, cumpriam o ritual íntimo e conjugal sem que nenhum dos dois esboçasse sentimento ou desejo. Com o tempo, o ato sexual passou a ser um suplício amplamente espaçado. Era inconveniente e torturante um tocar o outro. Já nem dormiam mais no mesmo quarto. Depois de anos, fizeram outra tentativa de aproximação. Subitamente, uma nova vida a caminho. Era o fim do poço. Outro descuido e mais acusações. Acabar com aquele teatro era questão de honra e decência.

Meses após o nascimento do terceiro filho, ele, por fim, se decidiu. Como tinha passado a trabalhar à noite, tornou-se mais difícil achar um momento para dar seu veredito. Durante o dia, estava sempre de mau humor devido ao sono acumulado. Comunicar sua decisão na frente das crianças não estava em seus planos. Dirigiu uma frase seca à mulher, dizendo que precisava fazer-lhe um comunicado. Pediu que ela deixasse a janela do quarto aberta, à noite, para que ele pudesse entrar por ela. Dessa maneira, as crianças não acordariam diante da movimentação atípica na casa, na madrugada, caso ele abrisse a porta da sala.

Naquela noite, ele, aproveitando as duas horas de jantar que tinha, deixou o local onde ganhava o sustento e rumou para casa. Sentia-se aliviado. Seria o fim de tudo... Depois de muitos anos, voltava a respirar aliviado. Entrou pelo portão, passou pelo alpendre e pulou a janela do quarto onde a mulher dormia. A cena inusitada provocou uma crise de risos desenfreada em ambos. Ele tentava tapar-lhe a boca, puxando-a para perto de si, para que o barulho não acordasse as crianças. Ela se contorcia, encostando-se nele, tentando recuperar o ar e abafar as galhadas. Ele sentia aquele corpo quente, seminu, preso ao dele. Os corpos se enroscavam, grudavam, sacolejando com o riso. Aos poucos, os risos se transformaram em silêncio, respiração, tensão, tesão, paixão, amor... Aquele homem que pulou a janela despertou nela os desejos mais ardentes. Ele sentiu-se invadido por uma vontade incontrolável de possuí-la... Duas horas se passaram de forma ligeira. O homem vestiu-se rapidamente e pulou novamente o umbral da janela. Ainda pôde ouvir a distinta dama pedir-lhe que voltasse na noite seguinte vestido de marinheiro.

As noites tornaram-se criativas, envolventes e emocionalmente românticas. Ela recebia, todas as noites, um mesmo homem de múltiplas faces. Ele, como uma aparição, invadia aquele quarto de fêmea aprisionada. E o que antes era o fundo de um poço conjugal se reascendeu... Nunca foram tão felizes juntos. Amavam-se mutuamente e aos filhos. No início da noite, quando ele deixava o lar para trabalhar, os olhares tornavam-se cúmplices e maliciosos. Ele se rendia ao comando fatal da mulher. Era um homem aprisionado e morreria de amores. Ela deixava-o ser quem ele quisesse. Podia ir a seu quarto como quisesse, menos com cuecão de couro. Era o combinado...

José Roberto Pereira

Escritor / Artes Cênicas


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