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27/11/2018 às 10:30h

Pará de Minas - Ouro Preto

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Angela Leite Xavier


Pará de Minas, cidade do oeste mineiro, nascida de um pequeno arraial formado em torno da venda de um português, Manoel Batista, situada no caminho que levava a Pitangui, onde muito ouro fora descoberto no século XVIII.

Sendo eu paraminense, fui criada comendo biscoitos de polvilho assados em grandes fornos a lenha. Região fértil, economia agropecuária me familiarizei com as coisas da roça, suas festas onde havia sanfoneiro, repentista e arrasta pés até a madrugada. Algumas destas festas terminavam com a ordenha das vacas e os convidados tomando leite fresco “ao pé da vaca”. Comíamos muitos pratos a base de mandioca: farinha, polvilho e seus deliciosos biscoitos. Fazíamos doce de leite, de mamão, de figo, de laranja da terra, de cidra. Requeijão era vendido nas portas num prato esmaltado.

De criança vi muitas vezes, boiadas atravessando a cidade na troca de pastos, costume comum entre nós. Meu pai, Zezinho Xavier, já teve gado e eu me lembro e uma boiada sua atravessando as ruas da cidade. Entre tantos animais, havia um boi bravo, usando canga, e foi difícil os boiadeiros controlá-lo.

Muitos conterrâneos tinham sítios, fazendas com criações: boiadas, galinhas, porcos. Plantava-se de tudo. Dentro mesmo da cidade, os quintais eram enormes e sempre tinham muitas frutas. Tanto é que ninguém vendia banana, goiaba, jabuticaba, manga.

Cidade de terra boa e muita fartura.

Então me mudei para Ouro Preto e percebi a enorme diferença entre as duas cidades mineiras. Ouro Preto nasceu do garimpo de ouro e ainda tem sua economia atrelada à exploração mineral. Capital da Capitania de Minas Gerais durante o período colonial com o nome de Vila Rica, continuou capital após a independência com o nome de Imperial Cidade de Ouro Preto. Neste período foram criadas escolas superiores nas áreas de Farmácia, Engenharia de Minas e Direito.

Muita riqueza havia, muito poder, revoltas, escravidão. Com a República, a capital passou para Belo Horizonte e Ouro Preto quase se tornou uma cidade fantasma. No entanto, muitos ficaram e muitos outros se mudaram para a velha capital atraídos pelas possibilidades de começar vida nova numa velha cidade quase em ruínas.

A cidade foi “descoberta” pelos modernistas que a visitaram nos anos 20 e se deslumbraram com a beleza da cidade preservada no estilo colonial.

Por esta época foi criado o Serviço do Patrimônio Histórica e Artístico Nacional e a cidade foi tombada pela sua importância histórica e artística. Museus e Instituições federais de preservação foram criados na cidade. Mais tarde foi iniciada a exploração de alumínio na região. Com todas estas mudanças a cidade se repovoou e se enriqueceu novamente. Uma população ligada ao comércio e às instituições públicas ligadas à preservação, à educação e aos museus.

E os costumes? Percebi imediatamente as diferenças em relação a minha cidade natal. Primeiramente, a terra não é fértil, tem muito minério e a agricultura não é seu forte. Nem a criação de animais. Tudo vem de fora.

Também, sendo sede do governo português durante todo o período colonial, manteve muitos de seus costumes. Um deles foi comer bacalhoada na Semana Santa. Também havia pastéis de nata vendidos na Estação de trem. Algumas receitas são do período colonial quando houve uma adaptação das receitas portuguesas com ingredientes locais. Imperam os pratos à base de milho, o fubá.

O Cuzcuz é um exemplo. Feito com fubá, manteiga e queijo, cozido no vapor. A quitanda mais popular é a broa de fubá, um bolo feito com coalhada, ovos, queijo e fubá. Em Ouro Preto, tradicionalmente, se come angu todos os dias acompanhado de carne de porco e verduras verdes. Estas podem ser a couve, que todos os quintais cultivam, ou taioba (taiá). Mas se comem também algumas folhas que eu não conhecia marianica, ora-pro-nobis (lobloblô no popular), serralha.

Também é costume comer os brotos de samambaia com angu, feijão e carne de porco. Uma vez levei um molho de samambaia a Pará de Minas. Meu pai era um curioso por novos sabores e provavelmente iria apreciar. Pois ele disse que sabia de um lugar onde havia muita samambaia e lá fomos nós colher braçadas de brotos. Havia esta espécie, só não havia o costume de comer.

Uma vez, em Ouro Preto, sai com a mãe de uma amiga a colher folhas verdes comestíveis num matagal perto de sua casa. Costume talvez muito antigo.

Outra coisa que me chamou a atenção em Ouro Preto foi a permanência dos rituais religiosos principalmente na Semana Santa. Em Pará de Minas eu vi muitos rituais desaparecerem ou se transformarem com a modernidade. Até a velha matriz foi derrubada e uma moderna tomou seu lugar. Em Ouro Preto todos os templos estão de pé. Igrejas e capelas. Até as capelinhas. Também estão preservados os rituais como os cânticos em latim do Setenário das Dores, as procissões com a Verônica e as Beús, as ruas enfeitadas com tapetes coloridos, as bandas de música, as amêndoas distribuídas aos participantes.

Creio que as mudanças são importantes, pois a sociedade evolui, os preconceitos vão sendo minimizados, nos tornamos mais conscientes. Porém é muito importante preservar nossas origens, nossa identidade. Somos fortes conhecendo quem somos, de onde viemos e para onde queremos ir.


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