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09/10/2018 às 23:17h

Pequena aldeia de Minas

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Tarde morna na morrinha da cidade pequena. Vacas magras buscam o verde.

Maria Bernarda na janela, cabeça apoiada, sozinha numa solidão eterna olhando, sem ver, a rua vazia. Olhando mais para dentro de si mesma, onde as lembranças são mais vivas que o presente.

E de dentro ela podia ver gente caminhando pelas ruas, se jogando no riacho que corre do lado, fugindo da queimação do calor. Ouvia as risadas das crianças, a algazarra dos cães.

A boneca de trapo, sem nariz, era sua única companhia. Sentada na janela como se ainda agora a meninada chegasse para lhe jogar água, brincando de refrescar. Também ela esperava na sua imobilidade sem vida. Não brigava, nem reclamava, sorria um sorriso eterno bordado com linha vermelha.

Da memória apagou-se o morrer lento da aldeia, quando os jovens buscaram crescer num lugar que fosse também grande. Os grandes passos da máquina, as grandes casas umas sobre as outras, a grossa fumaça cobrindo o horizonte formando nuvens que não trazem chuva.

Tudo tão grande como a espera de Maria Bernarda na janela de sua casa pequenina numa aldeia sem nome, no interior de Minas.

Melhor esquecer aquele tempo em que só restaram os velhos, tão velhos que se cobriram de branco. E, dependurados nas janelas de suas casas, olhavam o rio passar. Conheciam as águas novas que chegavam numa espera constante pela vida.

Viam na verdade, a morte dos animais magros e cansados, as ruas desertas, o barulho do vento nas folhas das árvores, o tempo que teimava em não passar.

Até que, todos eles, um após outro, em pó se transformaram.

Pó que ninguém soprou no rio, que ninguém dançou na despedida, nem cozinhou comida gostosa para levar na grande viagem.

Ninguém ficou para carregar a santa no dia de sua festa; dançar congado e tocar tambor. Ninguém para alimentar o fogo da fornalha.

O sol rachava o barro que mão alguma modelava.

Ninguém viu quando Maria Bernarda, também ela, derreteu e virou pó.

Só a boneca de trapo continuava na janela, sorrindo sem poder parar, esperando ainda sem poder mudar a realidade de ser trapo. A verdade de não ter vida como tudo mais que viam seus olhos de botão.






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