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11/03/2019 às 21:02h

Progresso versus Preservação

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Angela Leite Xavier

Saí de Pará de Minas como muitos jovens de minha geração, nos anos 60, para estudar em Belo Horizonte e, como muitos outros, nunca mais voltei a viver na minha terra natal. Apesar de espalhados por este Brasil a fora, sempre voltamos para matar a saudade, rever a família e os amigos. Fato curioso: sempre que eu retornava percebia uma mudança. Em pouco tempo a cidade onde nasci e cresci foi desaparecendo e, em seu lugar nascia outra que ainda hoje estranho. Para quem ficou as mudanças aconteceram naturalmente sendo eles próprios os agentes das mudanças. Era o progresso que chegava, dinheiro circulando.

Acompanhei a derrubada da velha Matriz da cidade. Acreditavam que ele iria desabar sobre os fiéis. Quando eu chegava nos finais de semana podia ver a demolição. Um guindaste trazia dependurada uma bola de ferro que batia incessantemente nas paredes da igreja que se recusava a cair. Os objetos de culto, santos e quadros foram doados às igrejas dos distritos. O grande relógio, pedaços dos altares e telas pintadas que decoravam as paredes foram guardados no Asilo das Meninas, hoje FAPAM. Anita Sales, comadre de minha mãe, encontrou, abandonado em um canto, uma tela pintada por meu avô Alfredo Leite Praça onde ele retratava a antiga Matriz de 1846. A pintura era de 1946 ano que se comemorava o centenário da Paróquia de Nossa Senhora da Piedade. Esta pintura foi entregue a minha mãe e hoje eu sou sua guardiã.

Assim como a Matriz outros prédios, referência de minha infância, foram derrubados. Para citar os mais significativo: casa arborizada onde vivia Marta de Abreu e onde hoje está a sede do Banco Real, o prédio da Prefeitura Municipal, a casa de minha avó Aureslina onde hoje está o Supermercado Panelão na rua São José, a casa de minha outra avó Maricota que hoje abriga a sede do INSS, o Cine Vitória e o Cine Imperial, ambos na rua Direita, o bar do Ari onde havia deliciosos picolés redondos de limão e côco, entre outros. Não ficou de pé nem o sítio de um personagem importante como Benedito Valadares.

A área verde ao redor da cidade desapareceu e o clima que já foi agradável chegando a ser muito frio e nebuloso no inverno, se tornou quente. O calçamento de paralelepípedos ficou debaixo da camada de asfalto jogada nas ruas principais da cidade. Uma onda avassaladora de "progresso" tomou conta de todos. Era como se fosse necessário desmanchar tudo e fazer outra cidade, e num período de tempo rápido demais! Abriram-se grandes avenidas, dezenas de novos bairros nasceram. Vou tentar enumerar os bairros ou logradouros do Pará onde vivi: Centro, Nossa Senhora das Graças, Alto, Várzea, Avenida Getúlio Vargas, Zambeque, Tabatinga, Automóvel Clube. A população crescia, muitos novos moradores chegavam de toda parte para viver numa cidade tão progressista. Os trilhos da estrada de ferro foram cobertos por grossa camada de asfalto acabando de vez com a linha de trens por onde tantas vezes viajei para Belo Horizonte, Bom Despacho, Mateus Leme ou para um final de semana na Fazenda dos Guardas. Para nós, que havíamos  saído para estudar fora, toda essa mudança foi um choque.

Felizmente veio a consciência de que alguns prédios deviam ser restaurados e usados pela população por serem referência cultural e histórica: o prédio do Fórum, o Grupo Escolar Torquato de Almeida, o Grupo Escolar Governador Valadares, os Colégios São Francisco hoje com outros nomes. A casa da Zezé Castelo Branco foi salva por um triz e restaurada e hoje abriga o Museu da cidade. O prédio da antiga Escola de Comércio hoje é Casa de Cultura, na Estação do Pará hoje um cinema, na antiga granja Orsini está a Escola de Artes Sica, o prédio onde funcionou o Asilo das meninas hoje é a FAPAM. As pinturas da velha Matriz foram restauradas e colocadas em novas capelas, os outros objetos são hoje acervo do Museu assim como muitas doações de famílias da cidade. A Banda de Música renasceu e hoje grupos de Congado se apresentam nas festas do Rosário. Um novo coreto foi construído onde havia o antigo.

As transformações fazem parte da vida. Só não podemos perder nossos rastros, as referências de nossa trajetória pela vida, o que constitui a história de um povo, sua identidade. As referências do passado são de grande importância para dar a personalidade a uma comunidade.

José Efigênio, meu marido, lendo a gazeta Paraminense a um tempo atrás, viu muitas reportagens onde as pessoas lamentavam a perda da antiga Matriz e comentou comigo:

" Por que não constroem outra Matriz idêntica à que foi desmanchada?" Disse isto porque havia visitado a Espanha e viu igrejas e monumentos totalmente reconstruídos depois de terem sido derrubados pelos bombardeios nazistas nos anos que antecederam a II Guerra Mundial.

Então eu pensei que o melhor presente para os paraminenses, hoje, seria ter a sua velha Matriz de volta. E acredito ser possível através das fotografias existentes e da vontade de todos.
Então, mãos à obra!


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