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10/06/2019 às 10:35h

Recado aos médicos

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Dia desses, fui visitar um tio que havia passado por uma consulta médica. Indignado com o que havia ocorrido durante o atendimento, ele foi longo rasgando o verbo, sentado em uma cadeira no terreiro de chão batido de sua casa, tendo ao lado um vira-lata de cor marrom e galinhas que ciscavam aqui e acolá. De posse de uma xícara esmaltada cheia de café quentinho, pus-me a ouvi-lo.

_ Ah, que trem, sô! Fui quase que arrastado pro doutore, e o diabo não me deu nada para trazer para casa. Vale-me Deus! Chegando lá, tirei as carças e botei uma camisola. O doutore me pegou assim nos braço e pois eu na cama. Custei a subir. Mas subi de jeito pra ele ver que não tô morto ainda. Esse homi começou a apalpar a minha barriga, aqui onde fica o bucho. E apertava. Apertava com gosto. Eu pensei: “Disgraçado, se eu sortar um peido aqui, ele vai falar que sou mal inducado.” Mas guentei firme! Esprimi a barriga para ela indurecer, e esse homi fez força, viu! Eu oiei para ele, ele oiou pra mim, e eu pensei: “Faz força aí até suar, carniça!” Mas aí o doutore mudou a apertança pra cá da barriga. Pegou aqui nas ancas. Aí eu gelei. Eu tenho cosquinha. Pensei: “Agora quem vai suar é eu!” Esse homi começou a apertar ali. E apertava. Curuis credo! Vale-me Deus! Que sufoco! Quando eu tava virando os zoio, vendo que eu não ia conseguir segurar mais um canudo de peido ou dar uma gargalhada daquela, o homi largou minhas ancas e veio pros meus peito. Foi um alívio, sô! Aí o doutore colocou aquele apareio pra ouvir meu coração. Mas, quando ele colocou aquele trem em mim, eu não guentei e falei: “Nossa Senhora, esse trem tá frio iguale um butão de metale”. O doutore oiou pra mim e fez uma cara de riso. Pensei: “Tá gozando de eu porque não é com ele, fedaputa”. Depois, esse incravado começou a mexer na minha perna. Passou a mão pra lá, pra cá. Até aí tudo bem. Mas o homi começou a levantar uma das pernas. Foi e vortô com ela umas cinco veize. Até aí, tudo bem. Mas aí, quando ele pegou na outra, eu não guentei e falei grosso com ele: “Pô a mão ocê pode pô, mas fazê ela levantar, não vai; de jeito nenhum. Porque, se levantar, vai ter que colocar ela no lugar. Isso se eu não cagá de dor aqui. Essa perna não estica. Ela incoieu e ficou dura ingual pedra.” Acho que ele viu que eu tava falando sério e parou inté de passar a mão. Pensei: “Bem feito. Se não tivesse mexido com essa perna aí, não tinha ouvido essa fala grossa minha”. Aí eu pensei: “Nossa Senhora, esse doutore vai me dá tanto remédio que minha posentadoria não vai dá. Não vai ter comida direito lá em casa esse meis, não. O jeito é passar a angu e couve e uns ovo frito para não tremer na volta do dia, porque carne não vai ter.” Mas aí é que vem a parte que me deixou numa bruta raiva, sô! Esse homi me ajudou a levantar da cama e a descer. Eu com essa peleja nessa perna, faço força aqui, seguro ali, para não precisar tanto dele, pra ele ver que tá mexendo é com homi. Coloco um pé naquela escadinha, coloco o outro pé no degrau de baixo... Meu Deus! Aí é que vi o tanto que aquela cama tava quentinha. Porque aquela camisola que a moça que trabalha com ele manda a gente vestir tem uma fenda atrás; não sei por quê! No que eu curvei o corpo na descida da cama, a fenda abriu de um jeito, e um canudo de vento veio nas minhas costas e desceu pra minha bunda tão ligeiro que eu apertei as bandas de jeito que só ocê vendo! Oiei pra ele e pensei: “Gente, esse disgramado num fecha nem a janela pra oiá a gente!” Pensei: “Pronto! Constipei!” Aí, ele me sentou na cadeira perto da mesa dele. Pra piorar, o trem era de plástico! Virge do céu! Eu sentia as duas bandas no pano da camisola e o meio da bunda pregado naquele plástico frio. Dei mais uma esprimida e cortei até prego pra não constipar, sentado naquela geladeira. Aí o homi começou a mexer com papele prá lá, prá cá. Tentado inscrevê aqui, ali. Pensei: “Esse doutore não deve tá conseguindo inscrevê meu ‘O’ de Horácio”. Quase que falei com ele que, antes de desenhar o “O”, tem que colocar aqueles dois pauzinho cortado no meio, que é uma letra que existe, mais não pode falar. Fiquei calado. Eu fui arregalando os zoio de um jeito naquela papelama que não vale de nada quando a fome, a doença ou a morte chega. E me deu uma tristeza! Fiquei oiando ele mexer com aquele mundo de papele e pensando só no angu com couve que eu vou ter que comer uns dois meis. Pela quantidade de papele, era mundaréu de remédio que eu ia ter que comprar. Daí o doutore me falou que eu podia ir e que precisava só de tomar muita água. Ele falô que eu tava era disindratado. “Ah?” Falei mesmo. “Ah?” Falei de novo. “O senhor acha que lá em casa não tem pote e nem firtro com água pra tomar, não? E é água boa, da mina que tem debaixo da moita de bambu.” Ele falou mais uns trem lá e mandou eu sair sem me dar nem um remédio para tomar. Nem um cumprimido. Porque, do jeito que ele passou a mão ne mim, eu pensei: “Esse doutore deve me dá um bitelo de cumprimido, tão grande que esse trem vai descer empurrando o badalinho, rasgando a goela e caindo inguale um tijolo lá no bucho.” Mas nada. Quase falei pra ele: “Sou posentado sô! Ganho um salário pra comprar remédio! E couve com angu eu tenho lá em casa pra não morrer de fome.” Mas não falei. Levantei e saí com metade da bunda de fora, porque aquele tiquinho de pano entrou numa das parte, e fui vestir minha roupa. Nem me dei o trabalho de desinterrar aquele meio parmo de pano atolado. Mas deixei um recado pros médico tudo de lá com a moça que fica detrais do balcão: “Oia, da próxima veiz que eu voltar aqui, vou trazer uma camisola bem custurada. Que misera de pano! Esses médicos não têm dinheiro nem pra mandar passar uma custura decente num pano... E a gente fica aí, pegando constipação à toa. Outra coisa, se eu vortar aqui de novo e sair sem nenhum cumprimido - e eu gosto de cumprimido grande, um bitelo assim - se eu não ganhar um pra engolir em casa, eu vou ingrossá a voz. O exame da dedada eu até que vou embora pra casa de cara amarrada. Mas ir embora sem um cumprimido, eu vô contrariado demais! Pronto, falei. Inté meis que vem!”

Por José Roberto Pereira

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