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12/08/2019 às 19:52h

Tripuí

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Tripuí, distrito de Mariana. Lugar comprido, cheio de ruas, muitas casas do século XVIII e XIX, belos casarões, muita manga e goiaba maduras. Tripuí é nome indígena como a maioria das referências geográficas de Minas. É o nome de um córrego que corta Ouro Preto e vai desaguar no Ribeirão do Carmo, um dos formadores do rio Doce. E, o mais curioso, foi neste córrego que encontraram as pedras pretas que escondiam o ouro de 23 quilates que deu origem a Ouro Preto.

Passeio pela praça da igreja. Ela é toda calçada com bloquete. Resta um pequeno quadrado diante da igreja com as pedras de seixo rolado do calçamento original. Admiro o porte da igreja; é uma matriz de fachada simples, mas imponente. A porta lateral estava aberta. Entro. Vejo alguns trabalhadores consertando o telhado. Goteiras, dizem. Muitas. Pude ver o interior do templo e me surpreendo com a joia que tenho diante de meus olhos. Altar-mor suntuoso, dourado combinando com muitas cores em uma pintura em estilo árabe com listras. Penso que deve ser bem antigo pelo estilo desta pintura. O sacrário é redondo encimado por um pálio. Nunca vi nada igual. Verdadeira joia. Muitos anjos sustentam as colunas. Vou para a nave e, no caminho, outra surpresa: o arco cruzeiro todo bordado! Dos lados, nas quinas, existem dois altares arredondados de delicadeza oriental. Mais dois altares laterais e dois púlpitos em forma triangular. Não há pinturas nos tetos. Com certeza se perderam ao longo dos anos, pois com a riqueza de detalhes das esculturas certamente haveria pinturas no teto da nave e da capela-mor.

Nesta hora chega Hebe, a guardiã das chaves da igreja. Sorridente, fica orgulhosa com meus elogios à sua igreja. É de 1745, diz ela. A sacristia tem um armário enorme, de madeira maciça, só comparado aos das matrizes de Ouro Preto. Um chafariz de pedra sabão tem uma escultura de duas cobras entrelaçadas com suas cabeças saindo de um lado e outro.

Hebe contou que quando a igreja foi restaurada, tiraram todas as tábuas do piso e havia muitos esqueletos enterrados ali. Esqueletos com bons dentes, muitos até com ouro. Foram todos colocados numa única campa e o chão rebaixado. Esta informação me revolta. Já vi coisa semelhante acontecer durante uma obra de restauração. Ai, que saudade de Jair Inácio e sua sabedoria com relação às coisas do passado! Infelizmente constato que não existe pesquisa e as pessoas mudam as coisas de lugar sem antes se informar sobre aquelas tumbas sob o piso da igreja. Desta forma muitas informações se perdem. Minas Gerais vai ficando sem memória. O Brasil vai ficando sem memória. Cito Edmund Burke: “Os povos que nunca olham para trás observando seus antepassados, jamais olharão para a frente, ganhando uma posteridade”. E digo mais: Não existe autonomia sem memória.

Saindo da igreja, já eram 15h e eu ainda não havia almoçado. Fui informada sobre uma pessoa que fornecia comida, mas a esta hora, já não havia. Peço para ir ao banheiro e uma senhora, muito gentil, me abre a porta de sua casa. Casa antiga, de grandes corredores com tábuas corridas que levam a uma copa já modernizada com azulejo nas paredes e piso de cerâmica. A dona da casa me indica o banheiro e depois me oferece um café com pão feito por ela, macio e recheado com queijo. Gentileza mineira preciosa.


Por Ângela Xavier





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