Capa da Página Um patrimônio embalado completa 100 anos - Cultura - JC Notícias Capa da Página

Icone previsão PARÁ DE MINAS - 10º MIN 28º MAX

Cadastre seu e-mail e receba nossas novidades

Icone IconeNotícias - Cultura

11/12/2017 às 14:06h

Um patrimônio embalado completa 100 anos

Facebook


No último dia 30/11, uma equipe técnica da Secretaria Municipal de Cultura e Comunicação Institucional de Pará de Minas desembalou sete telas que ornamentaram a antiga Matriz de Nossa Senhora da Piedade. Sete de nove que formam o conjunto. Das nove, uma está na Faculdade de Pará de Minas - Fapam e outra no Museu Histórico, também de Pará de Minas.  As telas foram registradas em 2010 como bens móveis e, por isso, ao menos uma vez por ano, são fotografadas, higienizadas e, havendo necessidade, recebem aplicação de produto específico para conter cupins. Foi a segunda vez que as vi tão de perto. A primeira foi no início de 2009, quando ornamentavam as paredes da Igreja de Nossa Senhora de Fátima e foram retiradas, pois estavam vulneráveis em meio a infiltrações e a outros agentes que podem levar a degradações. A segunda foi no dia já citado, na presença da equipe técnica da Secretaria de Cultura, formada por Ana Maria Campos, Evaldo Firmino, Maria Amália Arruda, Kleber Nonato e eu.

As telas foram cuidadosamente desembaladas para análise técnica, por meio de um laudo, do estado de conservação. Confesso que, estando tão próximo das obras e atento ao processo de desembrulhar, elas foram se revelando para mim mais monumentais e encantadoras. Trata-se de joias da arte, da cultura e da história de Pará de Minas. Nota-se que a pintura realista com traços barrocos e renascentistas foi muito bem executada, bem planejada, com excelente estudo de cor, volumetria assertiva nas figuras bíblicas, boa perspectiva e profundidade, recontando cenas religiosas, como a vida de Jesus e de Nossa Senhora, e retratando anjos e alguns apóstolos.

Neste ano de 2017, elas completam 100 anos. Pintadas por Guilherme Schumacher em 1917, as telas, de certa maneira, influenciaram as artes plásticas neste município nos meados da segunda metade do século XX, quando apareceram por aqui os primeiros pintores com trabalhos autorais e com formação acadêmica. Quem conhece o conjunto de artistas plásticos patafufenses e suas obras certamente reconhecerá em seus trabalhos traços da pintura de Guilherme Schumacher, ainda que de maneira não intencional. As telas remetem ao requinte, às cores, aos traços das artes plásticas de alguns artistas, como as madonas de Paulinho Moreira, as cores de Edward Carvalho, a pesquisa presente em algumas obras de Edna Morato, Amadeu Mendes, Júlio Pereira, entre outros. 

Ao olhá-las tão de perto, ocorre-me que Schumacher deve ter estudado a alegria, a coloração harmônica nos usos e costumes do povo pará-minense para executar sua obra, pois elas traduzem “um jeito nosso de ser”. Quando elas enfeitavam as paredes da antiga Matriz, cobriam de encanto e harmonia quem as visse, é o que relatam algumas pessoas. A Matriz foi demolida em 1971 e, até hoje, existem vários questionamentos quanto à necessidade de sua demolição. As telas foram recortadas da parede, reenteladas e colocadas em chassis de madeira.

Embalar tamanho patrimônio foi uma sugestão dada em 2009 por uma técnica do IEPHA - MG (Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais) como medida preventiva para que o tempo não deteriorasse mais as belas pinturas até que uma ação de restauração desse a elas condições necessárias para voltarem a ser novamente expostas ao público.

Do ponto de vista da arte, durante muitos anos elas alimentaram a criatividade de artistas e causaram encantamento no público. Já do ponto de vista religioso, fizeram parte de um conjunto de ações que fortaleceu a religiosidade e a fé do povo pará-minense. As telas estão sob responsabilidade da Igreja; pertencem a ela. Mas podemos dizer que, diante de tanta contribuição às artes, à cultura, à história e à religiosidade, elas também pertencem ao povo pará-minense. E esperamos que brevemente um projeto de restauração as coloque de volta ao lugar de onde nunca deveriam ter saído, bem ao alcance dos olhos de todos nós. 

Por José Roberto Pereira

Galeria de fotos

Clique nas imagens para ampliar: