Capa da Página O fim está próximo! - Cidadania - JC Notícias Capa da Página

Icone previsão PARÁ DE MINAS - 18º MIN 28º MAX

Cadastre seu e-mail e receba nossas novidades

Icone IconeNotícias - Cidadania

01/11/2021 às 14:59h

O fim está próximo!

Facebook


Segunda parte

Semana passada percorri um pequeno caminho entre o século XVII até agora demonstrando que sempre o mundo (enquanto humanidade) esteve prestes a acabar. Mas não acaba, resiste. E as novas gerações vão se adaptando e dando continuidade em modos e meios que a existência continua, mesmo contra o pessimismo de muitos.

Hoje serei mais breve quanto ao tempo histórico e vou ficar apenas no século XX e fazer uma pequena análise da minha ótica deste quase quarto de século que vivemos. É que as “gerações” no ensino são mais breves que as gerações seculares. No ensino basta uns poucos anos para termos grandes reviravoltas.

Foi quando no final da década de 90 e primeira década do século XXI que as trombetas do apocalipse tocaram anunciando a morte da ciência e prática do Direito. Novamente os pessimistas abriram um coro uníssono lamentando a nova forma de se “fazer o Direito”.

Toda perda é lamentável e sempre haveremos de lembrar daqueles que por aqui passaram e deixaram grandes marcas intelectuais. Mas como este artigo tem uma dose de ironia e cinismo, continuarei.

O fim do mundo jurídico foi declarado com a ascensão do Código Civil de 2002 e o abandono dos seculares institutos tão bem analisados por Rui Barbosa em seus Comentários ao Anteprojeto do Código Civil de 1916. O sepultamento se deu com o fim do Código de Buzaid (1973 até 2015): como abandonar o rigor processualístico? Agora dizem que o processo deve ser flexível, adaptar-se ao caso. As nulidades devem ser evitadas ao máximo. O prazo é flexível, privilegiando o fato em detrimento da processualística.

Como deixar de fazer citações das obras (físicas) de e Clóvis Beviláqua, Pontes de Miranda, Orlando Gomes, José Carlos Barbosa Moreira, Nelson Hungria, para citar somente alguns brasileiros? Agora, ao contrário de fazer citações, fazem desenhos e colocam gravuras nas petições. Chamam isto de visual law. Qual a necessidade de usar expressões em inglês? Nosso vocabulário não tem palavras para indicar o que se quer? Estará tão pobre assim a nossa língua portuguesa que precisamos recorrer aos Americanos? Que saudades do latim que muito mais ensinava e nos colocava diante da origem e verdadeiro significado das palavras: etimologia nunca mais! Se um jovem advogado de 24 anos fizer uma citação em latim, sua idade vai automaticamente para mais de 80 anos.

Ainda há de se dizer que o analfabetismo assola todos os profissionais do Direito já que não leem mais as obras de nossos grandes escritores clássicos. Já desconhecem quem foi José de Alencar, Cecília Meireles, Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto, Graciliano Ramos, Mário Quintana, Guimarães Rosa, Mário de Andrade, Antônio Callado, Monteiro Lobato, Aluísio Azevedo, Jorge Amado, Nelson Rodrigues, Joaquim Manoel de Macedo, Raul Pompéia, Rachel de Queiroz, Bernardo Guimarães e Euclides da Cunha, Dias Gomes, isto para citar alguns dos que vejo à frente aqui na minha estante.

Isto para não citar Joaquim Maria, escritor brasileiro que tem um dos sobrenomes remetendo àquela ferramenta de cortar árvores e outro à cidade italiana onde nasceu São Francisco que na verdade chamava Giovanni. O autor de Dom Casmurro não pode sequer ser mencionado sem dar calafrios em muitos.

Ademais, qual o motivo de ler estes autores? Não existe mais sentido nisto. Nem mesmo os autores contemporâneos precisam ser lidos. Perde-se tempo demais lendo, quando poderia estar aproveitando para o lazer.

Nem vou citar autores estrangeiros já que certa vez uma aluna pediu-me a indicação de uma obra para ler, e eu lhe recomendei Shakespeare; daí ela me pergunta quem foi que escreveu aquela “obra” que tive de soletrar o nome para que ela anotasse na palma da mão com uma caneta esferográfica com a tampa toda roída. Pedi que apagasse o estranho nome e iniciasse por Maurício de Souza.

Quanto a oratória! Está acabada, silenciada e muda! Hoje o uso da palavra não ultrapassa o exíguo vocabulário das redes sociais. No mais das vezes nem a palavra se usa mais, tomando o seu lugar símbolos denominados emojis. A comunicação está assemelhada à idade das pedras onde se bradavam grunhidos e mostrava-se os dentes para demonstrar os sentimentos aprovando ou não determinada situação.

Pedir a eloquência de Rui Barbosa, Pontes de Miranda, Luís Gama, Sobral Pinto, Thomaz Bastos, Ariosvaldo de Campos Pires, Milton Campos é um absurdo! Isto não existe! Não precisamos falar de forma tão rebuscada: se comunicou, está valendo! Aliás, para que ficar falando tanto? Não há motivos!

E assim os pessimistas ficam decretando a morte dos profissionais do Direito. Do mesmo modo que a cada virada de época ficam a dizer: “tempo bom, era o tempo antigo”. Ao dizer que a Geração Z (nascidos entre 2000 e 2009) e Alfa (nascidos após de 2010) estão destruindo o mundo jurídico os pertencentes às gerações Y (1983-2000), X (1961-1982) e baby boomers (1945-1960) e alguns veteranos ainda resistentes, apenas dão mostras que não conseguem se adaptar ao tempo e à história. Querem ficar plantados num lugar que não existe mais. Uma resistência que quer se fazer de “preservadora dos bons costumes”, ao passo que na verdade, sequer se esforçam para compreender as nova gerações.

Dizem que “o atual mundo está perdido!” Mas este mundo (década de 2010 e 2020) foi deixado por estes críticos. Assim como não são os atuais jovens de 20 e poucos anos que estão devastando a Amazônia, também não são eles que estão destruindo a cultura jurídica do século XX. Somos nós que lhes demos o legado que hoje verificamos. Não cuidamos de preservar; eles criaram!

Ademais, numa faculdade de Direito virtual (EAD - Ensino À Distância) que tem ações na bolsa de valores, a prioridade é a arrecadação financeira, numa batalha competitiva capitalista, tornando o aluno em fonte de renda e o professor na força de trabalho.

Mas os jovens vão sobreviver! Sem estes nomes desconhecidos que eu disse acima! São capazes de viver uma transformação que vai dar continuidade à luta pelo Direito e Justiça.

Por Ronaldo Galvão


Galeria de fotos

Clique nas imagens para ampliar: