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24/07/2018 às 19:02h

A casa

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Por Ângela Xavier


Eu, da janela do sobrado de meus pais na rua São José, 399, vejo a casa de minha avó sendo desmanchada, as árvores frutíferas que o tio Alberto cuidava com tanto carinho serem cortadas uma a uma, e também a casa da tia Mariquinha virar um monte de entulhos. A demolição começa pelo telhado, vão tirando telha por telha, descobrindo os quartos, depois a cozinha, a sala de jantar, a sala de visitas. Vejo o quarto da Rosa e, se fechar os olhos, posso ver a cama sempre coberta com aquela colcha colorida feita no tear, o retrato do Getúlio Vargas na parede e o seu pequeno guarda-roupas. O quarto da vovó com sua cama de solteira e uma cômoda. Sobre a cômoda um despertador barulhento cujos números brilhavam no escuro, muitas medalhas e santinhos, terços e santos que também brilhavam. Com sua imensa saia escura do luto que usou por toda a vida pelo marido morto aos 33 anos de febre tifo, o chinelo macio protegendo o joanete. Com sua expressão tranquila, fazia frivolité. Vejo aquela sala ampla com suas enormes janelas abertas para a rua São José, o assoalho de tábuas claras e escuras sempre lavadas, a mobília de palhinha onde se recebiam as visitas. Posso visualizar também o quarto do Luís do Arlindo da Maria Paiva, o quarto do vovô Zeca com sua cama de viúvo e o quarto de fora onde o papai fazia de comitê político. Era lá que ele guardava o material de propaganda política de seu primo Ovídio Xavier de Abreu ou do Plínio Salgado.

Nesta mesma casa minha família morou depois que meus avós se foram. E tudo se transformou. A sala de visitas foi encerada e ficou lindo o piso de duas cores. Um tachinho de cobre foi dependurado do teto por correntes e nele colocada uma samambaia. O quarto do vovô Zeca agora era o quarto dos meus pais, o quarto do Luís agora era da Beth e da Clara, o quarto da propaganda política ficou para a farmacinha dos pobres que meu pai manteve por muito anos. Eu dormi no quarto da vovó e o Alfredo no quarto da Rosa. O quarto de passar roupa que foi também da Cota ficou para o Zezé.

O quintal continuou o mesmo. O jardim, a parreira de uva branca ao lado da casa, o pé de goiabinha, o de cerejas, tudo como o tio Alberto deixou. As bananeiras de todas as espécies, as mangueiras – manga espada, rosa, pequi - laranja campista, limão, jabuticaba, ameixa, caqui, abacate manteiga, maracujá doce, goiaba, pitomba, fruta do conde. Era uma festa, paraíso para as crianças, um mundo mágico cheio de delícias. O grande mago das frutas: o tio Alberto.

O barracão, sempre cheio de entulhos, móveis velhos do tempo do bisavô, agora espaço das galinhas que não se contentavam em passear pelo quintal, mas ali faziam seus ninhos e chocavam.

Muitos anos depois, nesta mesma casa morei com meu marido e meus filhos. E tudo se transformou novamente. O quarto da vovó continuou sendo meu, o do Zezé agora era da Manuela e do Huaman, o quarto da Rosa virou quarto de brinquedos, o do vovô Zeca quarto de hóspedes e os outros vazios que fomos transformando em locais de trabalho atelier de cerâmica, pintura, desenho e restauração.

O quintal se cobriu de grama, ganhou uma horta, uma piscininha de lona. Como moradores uma cabra e dois cabritinhos e as galinhas que foram de meus pais, nós herdamos. Eram umas 40 de todas as raças, caipiras, rajadas, multicoloridas, índios, pedrês, carijó. Jamais esquecerei as lindas manhãs de verão naquele quintal imenso com sons de pássaros, deitada na grama macia.

Agora um trator está lá arrancando o que restava do vovô Zeca, da vovó Lilina, da Rosa e de tantas outras pessoas. Os caminhões saem cheios de tijolos e terra, restos de árvores, e nesses restos eu vejo um pouco deles. Os vestígios de meus antepassados paternos já não existem. Enquanto estava de pé a casa que os abrigou era um pouco deles que vivia. Porque sempre alguém dizia: “ Aquele era o quarto do vovô Zeca. Este era o quarto da vovó Lilina e aquele o da Rosa”. E estas lembranças mantinham vivas aquelas vidas que já se foram.

Agora as árvores caíam, seus restos incinerados. O terreno raspado por um trator e, em cada caminhão que parte carregado de entulho vai um pouco dessa lembrança.


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