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12/06/2018 às 09:10h

A imagem do Senhor Morto

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Quando o Itamar Franco era presidente do Brasil, houve um encontro do Mercosul em Ouro Preto. Toda a cidade se alvoroçou. Interferiu até no meu trabalho. Eu ensinava educação patrimonial para professores e crianças no casarão que foi da baronesa de Camargos, na praça Tiradentes. Esta casa foi requisitada para os militares fazerem a proteção dos presidentes e ministros que participariam do evento. Resultado: fiquei uma semana de folga.

Meu marido havia recebido dias antes a visita de um senhor com duas senhoras que eram da cidade de Maravilhas, oeste mineiro. Eles queriam que ele restaurasse um Senhor Morto da igreja Matriz de sua cidade. Deixaram um cartão e se foram. Nós tínhamos uma pizzaria anexa à nossa casa e eu aproveitei a folga para adiantar meu serviço. Quando conferi o material vi que faltavam alguns ingredientes essenciais e saí para comprar.

Estava andando pela rua São José, a mais movimentada da cidade, quase tropeçando nas pessoas porque a rua estava mais cheia que o normal, quando vi um carro da polícia. Ele estava parado em frente ao banco de onde eu saia. Lá dentro haviam três policiais e uma pessoa algemada, meio descabelada e chorosa. Era um rapaz e estava nervoso. Não gostei da cena que vi. Fiquei pensando até quando a cidade estaria tão cheia e principalmente com soldados do exército andando pelas ruas. Talvez o meu temor se deva às lembranças do período da ditadura militar. Naquele tempo Ouro Preto era muito vigiada. No mês de julho, quando acontecia o Festival de Inverno, um camburão estacionava na praça Tiradentes, debaixo da estátua do mártir da liberdade, e ali ficava o mês todo. Quantas vezes eu vi policiais jogando bombas de gás lacrimogêneo em grupos de jovens que cantavam ao pé da estátua. Quantos amigos foram presos de madrugada porque não portavam documentos. Quantas vezes eu ou minhas amigas fomos abordadas com muitas perguntas, pedidos de documentos.

Segui meu caminho com essas lembranças de violência e fui ao mercadinho comprar o que me faltava para as pizzas. Devo ter demorado uma duas horas e meia na rua e voltei rapidamente para casa pois, muito trabalho me esperava. Ao entrar na pizzaria meu coração gelou! Em cima de uma mesa grande do bar estava um corpo coberto por um lençol branco. Fiquei paralisada de susto e de medo. Eu não estava entendendo o que era aquilo! Meus olhos passearam pelo balcão e eu vi um papel onde estava escrito: Edgar e Dulce, Maravilhas e, a seguir, um número de telefone. Imediatamente compreendi: aquela devia ser a imagem do Senhor Morto de Maravilhas! Mas não tive coragem de tirar o lençol para verificar.

Entrando em casa perguntei ao meu marido que me contou o seguinte. A imagem era mesmo a do Senhor Morto e foi trazida em uma ambulância porque não cabia em um carro. A ambulância parou na porta de nossa casa e de dentro saiu uma maca com a imagem coberta com o lençol branco. Os vizinhos se aproximaram assustados perguntando o que havia acontecido. E ele, destampando a imagem, havia dito: “Não é nada, é apenas o Cristo Morto.” Eu então lhe contei o susto que também eu havia passado com aquela imagem, em tamanho natural, do Senhor Morto da cidade de Maravilhas.

Por Angela Xavier

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