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26/07/2019 às 20:11h

Mateus Leme - Janeiro de 1976

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O nome deste lugar, Mateus Leme, é o nome de um bandeirante que passou por aqui. Nada sei sobre ele. Trabalhei na restauração da igreja de lá em 1976. A igreja fica na praça central tendo um jardim defronte e ao redor, belas casas antigas. Eu e uma colega de Ouro Preto, a Márcia, ficamos hospedadas numa pensão e almoçávamos na casa do vigário juntamente com os outros trabalhadores da obra: Sr Jorge, pedreiro e Wilson, pintor. Nosso trabalho era a recuperação da pintura do teto da capela mor. Tratamento das tábuas a cargo do Geraldo, o responsável pela obra, funcionário do IPHAN. Eu e Márcia cuidávamos da recuperação e reconstituição da pintura. Relato os fatos do dia a dia naquela pequena cidade do oeste mineiro.

Igrejinha dourada, pintadinha, coisa dos velhos tempos!

Enquanto a restauração era feita na pintura do teto, os rituais religiosos continuavam acontecendo. O local de trabalho era também o local sagrado. Trabalhávamos com o sagrado alheio!

Descansávamos depois de um trabalho exaustivo de transposição, sentadas na porta da igreja, quando ouvimos um velho, meio maluco, gritando com um alto-falante: “Chegou o tempo das eleições! Quem quiser votar é só escolher o candidato”.

Pouco depois, chegou um bêbado e perguntou: “É melhor pedir ou roubar”? E ganhou um cigarro. Sentou-se ao nosso lado com sua cachorrinha Chita, foi rodeando e começou com as adivinhações:

“Qualé o fio que não tem pai”? Faz suspense, dá tempo para pensarmos e responde ele mesmo já que ninguém matou sua charada: “É o fio do cabelo” E ri com sua boca desdentada. Continua com as perguntas: “O que é que nasceu do leite e tem cabeça de aço”? Essa foi difícil e ele vai logo dando a resposta: “É o laço”. Nem entendi a lógica. Só se foi para rimar.

Ele segue, falante: “Ô dona, a senhora sabe onde está a boa esperança? Tá no coração da senhora. Senão num tinha vida nem nada”. Dou um espirro e ele diz: “Deus te dê o que o diabo num quis. O céu, né”?

Outro dia, entrou na igreja uma velhinha perguntando pela Nossa Senhora das Dores, sua madrinha. Levei a senhora até a sacristia onde estavam os santos de roca. Havia uma imagem da Senhora das Dores ao lado da imagem do Senhor dos Passos. Era uma imagem descorada de rosto triste com duas lágrimas salientes caindo dos olhos. Tinha uma cabeleira cacheada feita de cabelo de gente e uma roupa feita de filó com rendas e outras saias de cetim por baixo como essas roupas de bonecas de pano. Tudo empoeirado, se desfazendo. Tudo naquela imagem lembrava abandono e necessidade de restauração.

A velhinha se aproximou, pegou nas mãos da imagem e começou a dizer: “Oh! Minha madrinha! Há quanto tempo! Desde o meu batismo, há 79 anos... E a senhora aí... Me desculpa madrinha não ter vindo antes. A sua bênção”!

A moça entrou na igreja indecisa. Perguntou por São Tarcísio, aquele que é representado só da cintura para cima. Passando os olhos pela igreja, ela o viu sobre a pia, lá no alto. Fez o sinal da cruz, rezou e pediu para colocar moedas lá em cima para ele. Era promessa.

O dia todo entravam homens, mulheres e crianças para rezar, pagar promessas. Rezavam no altar de seu santo de devoção. Em alguns casos a imagem estava sendo restaurada e eles faziam muitas recomendações. Paravam para ver o trabalho de restauro. Se interessavam.

Mulheres estavam o tempo todo rezando terços e ladainhas intermináveis que eu não ouvia desde a infância. Muitas chegavam para limpar a igreja, não sem antes, rezar bastante.

O Seu Zé Combate chegou um dia empolgado com a restauração das pinturas. Homem de 61 anos, negro forte, pouco cabelo branco nas têmporas. Começa a contar histórias, a falar de si no seu linguajar interiorano:

“Minha patroa é sacudida; tem 60 ano também mais inda trabaia, ela na sua profissão, eu na minha. Meu fio caçula tem 18 ano. Agora nós tá em lua de mé”.

A capilinha lá no morro foi nóis que construiu. Eu fui o primero home a pô as mão naquelas viga. Levamo os pau lá prá cima nas costa. Num tinha istrada, era só uma tria. Os home chego tudo sangrano lá in cima. Dispois puzero os pau lisinho, lisinho prá fazê o cruzêro. Tem gente qui é bruta e um home desses falô qui esse cruzêro, nem Deus derrubava. Todo mundo fico cum medo da blasfema. Quando voltamo, cumeçô a chuvê e veio uma nuve preta enrolano assim ó, fazeno um baruião e aí formô um curisco qui desceu cirtinho in cima do cuzêro. E lá tinha para-raio e tudo. Mas era de si vê o qui sobrô da madera do cruzero! Parecia bagaço de cana. Dispois, prá levá o segundo cruzêro, num dexaro aquele home bruto acumpanhá não”.

Eu, de cima do andaime, via os altares laterais da igreja, os bancos, os púlpitos e as portas abertas. Entraram três menininhas a caminho da escola com seus grampinhos na cabeça, sacolinhas de pano feito embornais, onde levavam seu material escolar e um saquinho de plástico com a merenda. Entraram e se ajoelharam em cada um dos altares fazendo o nome do Pai. Riam baixinho, com a mão na boca, em sinal de respeito pelo lugar sagrado. Por último rezaram diante do Santíssimo, com seriedade, saindo em seguida rumo à escola.

Um dia, chegou o Tenente Enio, nosso companheiro de hotel. Seu Jorge desceu rápido para um dedo de prosa sobre os bons tempos de Ouro Preto. Lembraram a rivalidade que havia entre os cordões carnavalescos, Banjo de Prata e XV de Novembro.

Eu, de cima do andaime, participo da conversa. Tenente Enio sonhava com um mundo em que não existisse padre, nem exército, nem político. Um mundo que não teria necessidade dessas coisas, onde as pessoas fariam o que gostassem e tivessem tudo o que necessitassem. Com este pensamento, ele pretendia vender seu imóvel e sair com a família pela América a fora. Afirmava convicto de que o dinheiro e o trabalho serviam era para isto. Que a vida era curta e o mundo grande. Lembrou que o Cristo havia dito: “A minha casa tem muitas moradas”. Daí, concluiu ele, a atração que a gente sente por isto ou aquilo, vem de outra época. E virando-se para mim: “Quem sabe você não ajudou Miguelangelo a pintar a Capela Sistina?” E eu, de cima do andaime, fiquei cismando sobre minhas possíveis existências anteriores.

O Tenente Enio é espírita, gente boa, ele. Só podia mesmo ter tido um pai que amava as plantas, sabia que as plantas precisam ser tratadas com carinho, que precisamos conversar com elas para que elas cresçam e deem flores e frutos. Esta é sabedoria da gente simples, do camponês, do indígena. Uma sabedoria que a vida da cidade esqueceu.

Enquanto isto, vejo entrar na igreja uma mulher do campo como há muito não via. Com seu vestido de chita rodado dando no meio das pernas, os cabelos trançados em duas longas tranças presas uma na outra nas costas e aquele olhar limpo como o de uma criança. Sentou-se num banco, fez o sinal da cruz, tirou o seio e deu de mamar para o neném que trazia nos braços. Assim ficou por muito tempo balbuciando orações com o olhar fixo no altar enquanto seu filhinho mamava e dormitava.

Ângela Xavier

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