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10/07/2018 às 09:15h

O doce de figo e Canudos

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Em nossa casa plantamos um pé de figo e cuidamos com carinho até que um dia ele nos surpreendeu com os primeiros frutos. Eram 11 figos e já estavam no ponto para fazer um doce em calda, especialidade que aprendi com minha mãe. Então colhi os figos, raspei e dei a primeira fervura. Tem que ser no tacho de cobre para ficar bem verde. E o tacho tem que ser areado com sal e limão para tirar o zinabre. Com a primeira fervura ele fica feio, amarronzado, mas eu não me preocupei, pois sei que é assim mesmo. Meu marido acompanhava tudo porque adora este doce e não via a hora de comer. No dia seguinte o mesmo ritual: arear o tacho e dar a segunda fervura. Os figos começaram a esverdear. Mais um dia de descanso e foi feita a terceira fervura quando os figos ficaram bem verdinhos e cozidos. Era só esperar esfriar e colocar na calda. Decidi terminar o doce neste mesmo dia.

Nossa cozinha era grande e aberta, separada da casa. Coloquei os figos na calda e fui ver televisão enquanto tomava uma sopa. Lembrei que era quarta feira e estava passando Canudos no cinema. E era o último dia! Como professora de História, eu estava estudando o período do coronelismo com os alunos e já havia lido Euclides da Cunha. Eu não podia deixar de ver o filme! Levantei de um salto, troquei de roupa e escrevi um bilhete: - Fui ver Canudos.

Como estaria representada na tela aquela epopéia do povo miserável seguidor de Antônio Conselheiro, o profeta que pregava pelas ruas: “O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão”? Empolgada com a perspectiva de ver o filme sai quase correndo, pois já estava passando da hora.

Cinema lotado, consegui entrar e logo o filme começou. Bons atores, trilha sonora de qualidade, emocionante! O filme mostrava as injustiças contra o povo simples do campo e as idéias do profeta de construir uma cidade que fosse de todos, onde todos mandavam e ninguém poderia obrigá-los a nada. Marieta Severo representava uma família que deixou seu casebre para trás e seguiu Antônio Conselheiro.

Houve uma cena, quando a atriz jogava a moranga picada na panela, que me deu um lampejo de lembrança: - O meu doce de figo havia ficado no fogo! Levantei de um salto e fui até a portaria do cinema. Pedi ao responsável para dar um telefonema urgente. Em minha casa ninguém atendeu. Liguei para a vizinha: - Sandra, é Angela! Ela não me deixou falar mais nada. - Você é louca! Deixou uma panela no fogo. Saía uma fumaça branca até o céu. A gente chamou o Corpo de Bombeiros, mas eles demoraram. Então o meu marido e um amigo pularam o muro e desligaram o fogo. A panela estava preta. A diretora do colégio ao lado também saiu pulando muros até chegar à sua cozinha, mas nós já havíamos resolvido tudo. – Ah! Muito obrigada! Disse aliviada e voltei para continuar a ver o filme.

Ao chegar em casa esperava um sermão, o perigo de incêndio, o doce perdido! Mas estavam todos vendo TV na maior tranquilidade. – Oi, tudo bem? – Tudo bem! Responderam. Fui até a cozinha para ver o estrago. Nada! Sai ao quintal e lá estava o tacho encostado na parede tendo uma grossa crosta preta por dentro. Voltei.

- Pois é, o doce queimou! Não deu para aproveitar nada.

- Isto acontece!

Alívio. Dias depois consegui figos e fiz um tacho cheio de doce, finalmente.

Por Ângela Xavier

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