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08/04/2019 às 09:04h

Os trabalhadores da arte

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Novamente usaram nosso ofício de trabalhadores da arte para garantir vantagens, para aparecerem como destaque em mídia fácil. Atacam-nos, covardemente. Andam nos rebaixando a algo desnecessário ou nos comparando a uma sanguessuga que nunca está saciada.

Em outros tempos, já chamaram nosso trabalho de alimento da alma, porém, atualmente, saciados, vomitam onde tantas vezes se alimentaram. Afirmavam também que nosso trabalho humanizava. Mandaram-nos para áreas sociais aonde o poder governamental não conseguia chegar. Após o trabalho iniciado, a casa arrumada, o povo com a voz levantada, instruído pelas ações culturais às quais foram apresentados, aqueles que estavam no poder (ou ainda estão), vieram e silenciaram povo e artista. Cortaram quaisquer tipos de verbas ou iniciativas a fim de impedir que as pessoas da área assistida continuassem cantando suas desgraças ou alimentando seus sonhos. E continuam usando nosso trabalho para chegarem ao poder, pronunciando em palanques que a arte e cultura são essenciais à formação de qualquer indivíduo, mas depois ignoram nossos produtos. Atacam-nos pelas costas porque, muitas vezes, são incapazes de dialogar frente a frente. Fecharam algumas de nossas casas e engavetaram nossas pastas.

Já fomos chamados de brisa fresca que acalenta as mazelas humanas. Um bom espetáculo, um bom livro, um bom filme – entre outras produções dos trabalhadores da arte – são capazes de inaugurar sentimentos, sensações e renovar a vida. Em momentos de stress, de patologia, de angústia, de cansaço, usam nosso trabalho, usufruem de toda a cadeia produtiva artística para se recuperarem, mas depois blasfemam que não precisam de artista. De outros trabalhadores, sim; mas, do artista, não. Ignoram que uma simples roupa, um sapato e alguns assessórios indispensáveis ao nosso dia a dia estão na área de atuação dos trabalhadores da arte. A ignorância torna as pessoas cegas e canalhas.

Aqueles que usaram do nosso suor para conseguir a cadeira do poder andam tentando nos subtrair leis que nos concederam direitos. Cortam nossas míseras verbas conquistadas ao longo das décadas de articulações entre poder público e trabalhadores da arte, criando ambientes hostis e nos colocando uns contra os outros. Até de malandro e vagabundo nos chamam. O que nós conquistamos, porém, ninguém nos tira. Estaremos sempre um passo à frente, nunca retrocederemos aos porões da estupidez governamental de direita ou de esquerda.

Até o momento, fomos brisa fresca, favorável, alvo fácil para tudo aquilo que nos é jogado e blasfemado. Mas, se quisermos, nós, trabalhares da arte, poderemos nos transformar em tempestade tropical, tornado, furação destruidor e impiedoso. E poderão ver do que é capaz “um vento fresco”. Um grupo se agiganta quando quer. Aí tudo pode mudar. O que antes refrescava poderá esquentar. Podemos percorrer distâncias, varrendo um país inteiro, usando as mais convincentes palavras, sem o apelo da persuasão ou da mentira em mídia sem credibilidade – apenas dizendo a verdade. Como furação, poderemos destruir tudo. Colocar pedra sobre pedra e recomeçar. Mas, como somos arte, cultura viva e história, não podemos ignorar a ética, o bom senso e eliminar nossos inimigos. Porque somos resistência, como sempre fomos ao longo da formação das sociedades nas ilhas e continentes. Somos água, sempre nos movendo e nos adaptando às intempéries. O tempo, os homens, os ideias passam ou mudam. A arte e seus trabalhadores agregam, se refazem, se revezam, se reconstroem, tornam-se história. Estamos no tempo de sermos furação, porém com a delicadeza de permanecermos brisa.

José Roberto Pereira

Escritor / Artes Cênicas


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