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23/03/2022 às 14:00h

Viajando pelo Egito

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O alimento é um dos prazeres que mais criam memória afetiva. Ninguém vive sem se alimentar. Na maioria das vezes, estamos acompanhados ao degustar delícias. Nossas primeiras memórias estão, indissoluvelmente, ligadas à comida, à cozinha da casa de nossos pais ou de nossos avós. É nesse cenário, marcado por cheiros e sabores, que se desenvolve nossa intimidade com os alimentos. Para quem tem oportunidade de conhecer lugares e se inserir em outras realidades no contexto da culinária, o ato de consumir alimentos pode causar mudanças em pessoas sensíveis, empáticas e criar memórias marcantes e duradouras. Foi nesse contexto que mergulhei na culinária faraônica, no inverno egípcio de 2021. A experiência de cheiro e sabores foi tão marcante que coloco essa viagem entre as mais interessantes que fiz.

A base da culinária egípcia é diversificada, composta por vegetais, proteínas, carboidratos e sofre influência da cozinha do Mediterrâneo e do Oriente Médio pelo fato de o Egito estar em uma área geograficamente privilegiada, entre os continentes Africano e Asiático. A combinação de especiarias resulta em pratos saborosos e acentuados. Cidades litorâneas possuem um cardápio vasto, com predominância de peixes e frutos do mar. Em geral, em boa parte dos lugares que visitei, mantém-se o charme da cozinha tradicional, com pratos elaborados à base de condimentos, muitos deles plantados às margens do rio Nilo, como coentro, hortelã, anis, cominho, gergelim, orégano, tomilho, açafrão, alho, manjerona, manjericão, erva-doce etc. Mas, inevitavelmente, a cozinha egípcia foi também atingida pelo processo de globalização.

São muito populares no Egito, em ruas e praças, a céu aberto, os mercados de hortaliças, frutas, verduras, grãos, pães, especiarias e animais abatidos, retalhados aos quilos para serem vendidos. Caminhar por entre os becos dos mercados é caótico, mas causa encantamento. A poeira do deserto deixa o ambiente ainda mais complexo de ser descrito.

Segundo alguns registros, no período dos faraós, a população egípcia consumia legumes, frutas, verduras, pães, grãos e proteína animal. Fabricava-se e consumia-se cerveja feita de cevada e vinho, este último, provavelmente, absorvido da cultura síria-palestina. Em tumbas e templos, é possível ver a riqueza de detalhes dos alimentos, dos utensílios domésticos, cenas de colheitas de grãos e de caças pintados, esculpidos em baixo ou alto-relevo que revelam o requinte da realeza. Em tumbas, foram encontrados alimentos, colocados como oferendas, ou reproduções em miniaturas. Um importante documento do período de Ramsés III descreve sua curiosa alimentação: o “[...] Papiro Anastasi IV possui uma lista de produtos a serem reunidos por um funcionário do palácio de Ramsés III para um banquete de recepção da chegada do faraó à capital. A partir das inscrições, podemos listar, pelo menos, nove tipos de pães disponíveis para consumo, identificar as carnes consumidas no palácio, principalmente de aves como o ganso, codornas e pombos, além de carneiros e peixes, diferentes tipos de bolos e frutas. No entanto, nem todas as camadas da sociedade gozavam da mesma dieta. A cozinha do palácio do faraó, sem dúvidas, dispunha dos mais diversos cardápios alimentares. Já a população tinha como base da alimentação diferentes tipos de pães e a cerveja, complementados por vegetais e frutas, e em períodos de festividade, por carnes e outros alimentos distribuídos pelo palácio e pelos templos. [...].

Na tumba mais famosa, a de Tutankhamon, foi encontrada uma grande quantidade de comida: omoplata de uma vaca, costelas de carneiro ou cabra, asas e peitos de nove aves, uma variedade de pães, frutas, mel, grãos, entre outros alimentos. Os egípcios acreditavam na vida após a morte e consideravam que os mortos também se alimentavam diariamente. Alguns dos alimentos desse tempo estão presentes nas cozinhas espalhadas pelo mundo, como fava, lentilha, grão-de-bico, quiabo, cebola, alho, alho-poró, aspargo, aipo, couve, nabo, rabanete, alcachofra, alface, endívia, pepino, agrião, salsa, abobrinha, berinjela, entre outros.

O acervo dos museus egípcios possui uma impressionante quantidade de utilitários de cozinha. O designer, o acabamento e a variedade de materiais usados, como a cerâmica, pedra, cestaria, tigelas, pratos, copos, talheres, potes, pilões datados de 3.000 a 5.000 a.C. nos dão uma dimensão da sofisticação e do conhecimento dos artistas da época.

Viajar para o Egito é mergulhar em uma das maiores civilizações que já existiu e que deixou um legado extraordinário ainda em estudo. Boa parte do acervo egípcio permanece adormecido sob as areias do deserto à espera de escavações arqueológicas que o revelem ao mundo. Para não ficar perdido em meio a tanta cultura, é aconselhável o acompanhamento de um guia local que fale português ou outro idioma que o turista domine para que ele possa compreender os registros em tumbas, templos e cidades. A história egípcia é tão misteriosa que, a cada cinco anos, os guias passam por uma atualização de conhecimentos, pois, com os achados arqueológicos, ela pode sofrer mudanças ou ser completada. Trata-se de uma civilização complexa, completa, rica em arte, cultura e com aprofundamento em várias áreas do conhecimento.

Voltei ao Brasil com a sensação de que sabemos muito pouco sobre nossos ancestrais e mais atento à alimentação. A comida, indispensável à nossa sobrevivência, provocou significativas mudanças no comportamento humano ao longo dos tempos e continua sendo uma das pautas mais urgentes nos dias atuais, considerando que boa parte da população mundial vive na miséria, travando lutas diárias para se alimentar. Situação que cria uma condição traumática e agoniante em quem passa fome. Um problema grave que causa mortes e que dificilmente será solucionado, principalmente por envolver esferas governamentais que não criam políticas públicas eficientes para saná-lo. Problema, que, sem tais políticas, nem mesmo os faraós conseguiram resolver.

Referências
Telo Canhão, A alimentação no antigo Egipto. Revista Hapi, Lisboa, n.3, p.33-89, Novembro, 2015.

Fonseca, Sofia. Guasch Jané, Maria Rosa. Ibrahim, Mahmoud. O vinho no Antigo Egito: uma história mediterrânea. Revista Mundo Antigo, (NEHMAAT-UFF/PUCG), Campos dos Goytacazes (RJ), ano 1, v.1, nº1, p.131-146, Junho, 2012.

http://museuegipcioerosacruz.org.br/alimentacao-e-culinaria-no-tempo-dos-faraos/


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