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04/12/2019 às 15:49h

O bobo da corte

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Ele aparece no livro número 3 das crônicas pantagruélicas de François Rabelais. No "Le Roi s'amuse" de Victor Hugo e também no "Rigoletto", de Giuseppe Verdi. Todos estes personagens bufões não são fictícios, senão que uma versão, ainda que adaptada, do mais famoso bobo das realezas. O folgado Nicolau Ferriol, mais conhecido como Triboulet, passou para história com o título de "bobo do rei e rei dos bobos", dos reis Luís XII e Francisco I da França, no início do Século 15.

Tudo começou quando Triboulet, como de costume, andava pelas ruas de Blois contando suas piadinhas infames e pedindo esmola a quem quer que encontrasse. Ele era muito popular na cidade, mas, de fato, quase ninguém lhe dava a devida atenção porque ele simplesmente não conseguia falar de forma séria.

Nesse dia em específico, que geralmente iniciam todas as narrativas sobre o bufão, Triboulet viu passar um fidalgo que o Duque de d'Angouleme, futuro Rei Francisco I, enviara com uma mensagem ao rei Luís XII. Ele viu no homem uma forma fácil de ganhar algumas moedas, e começou a segui-lo contando as piadas mais sem graça de seu repertório.


Mas Triboulet não era apenas abusado senão que vivia se metendo em encrenca por pouca coisa. Ele não teve melhor ideia de, depois que o fidalgo lhe ignorou solenemente, cortar o peitilho de sua casaca com uma canivetada. Com receio de que os populares tomassem sua defesa, os pajens do fidalgo levaram Triboulet para fora da cidade amarraram o homem em uma árvore e o surraram sem parar.


Os gritos do infeliz foram tantos e tão desesperados, que, dizem, Luís XII ouviu-os do castelo. Triboulet, libertado enfim, foi, em pessoa, queixar-se ao soberano e contou como fora a surra que levara de uma forma tão cômica que o Rei decidiu contratá-lo como bobo da corte.


No dia em que Triboulet estreou no castelo houve uma gargalhada geral devido ao próprio jeito do bufão, um sujeito baixinho, barrigudo, com um tremendo cabeção e um pescoço muito longo, que vestia uma espalhafatosa roupa colorida. Somente mais tarde ele se consagraria com a roupa toda vermelha pela qual ele é lembrado.

Como dizíamos no começo, Nicolau era o retrato do tipo desaforado e insolente. Seus historiadores divergem sobre sua inteligência mordaz e cínica ou de um possível transtorno mental. Mas isso acabou fazendo dele a antonomásia do bobo da corte para o todo sempre.

O folclore francês está cheio de causos protagonizados por ele e fica difícil saber quais são reais e quais foram inventados depois. Mas sendo ele um funcionário do rei, muitas histórias foram registradas pelos biógrafos que escreviam as vidas dos reis.


Dizem que certa vez Triboulet foi até Luís XII se queixando que um nobre havia ameaçado matá-lo enforcado!


- "Não se preocupe! Se ele enforcar você, eu o decapitarei quinze minutos depois." Ao que Triboulet retrucou rapidamente:


- "Bem, seria possível que Vossa Realeza o decapitasse 15 minutos antes?"


Outro episódio que leva a pensar que Triboulet não batia bem da cabeça: certo dia ele não conseguiu se conter e deu um tapa na bunda do monarca. Francisco I perdeu a paciência e ameaçou executar Triboulet. Um pouco mais tarde, o rei se acalmou um pouco e prometeu perdoar Triboulet se ele pudesse pensar em um pedido de desculpas mais insultuoso do que o próprio ato ofensivo. Alguns segundos depois, Triboulet respondeu:


- "Sinto muito, majestade, por não ter reconhecido vossa alteza! Achei que era a rainha!"

O rei riu (não riu muito) e decidiu proibir qualquer piadinha com a rainha e suas cortesãs. O problema é que o bufo descarado não conhecia limites, e poucos dias depois deu tapa na bunda da rainha. Agora era muito para Francisco I que ordenou matar o bobo da corte imediatamente.


No entanto, tendo servido particularmente bem o rei por muitos anos, Francisco concedeu a Triboulet o direito de escolher a maneira como iria morrer. Triboulet, com a mente afiada -o que prova que ele nem era retardado-, disse o seguinte:


- "Bon sire, par sainte Nitouche e São Pansard, patronos da folie, je demand à mourir de vieillesse". Que se traduz em: "Bom senhor, pelo bem de São Nitouche e São Pansard [santos que não existem, é apenas um trocadilho fonético em francês], patronos da loucura, eu escolho morrer de velhice." Não tendo outra escolha senão rir, o rei ordenou que Triboulet não fosse executado, mas sim desterrado do reino.

Ronaldo Galvão

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