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11/12/2019 às 22:25h

A velha atriz

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Todas as cidades têm seu começo. E é sempre uma rua comprida, chamada Direita, que vai dar na Igreja Matriz. Nesta rua está o comércio, ali os bancos, os bares, o footing nas noites de sábado. Aí desfilam os congados e os blocos de carnaval. É por onde passam as procissões e os cortejos fúnebres. Dela nascem outras ruas no crescimento das cidades.

É grande privilégio e símbolo de poder ter uma casa na rua Direita. Sendo assim ela se encomprida sempre.

Em Pará de Minas não foi diferente. A sua primeira Matriz foi dedicada a Nossa Senhora da Piedade, sua padroeira. Era nos primórdios uma igreja barroca, da qual conheço a fachada por um quadro pintado por meu avô, Alfredo Leite Praça. O quadro é comemorativo do seu centenário e traz as datas: 1846 – 1946.

Defronte à Matriz havia um jardim florido e um enorme coqueiro. Nela fui batizada, nela assisti às missas dominicais e participei com todas as meninas de então, das coroações a Nossa Senhora nos meses de maio.

A matriz era o centro da vida da cidade. No início do século XX o sino era badalado quando havia uma emergência. Nas grandes festas religiosas, como a Semana Santa, um palanque era montado defronte à Matriz para a encenação de episódios bíblicos, costume que seguiu até os anos 60. Era necessário um espaço maior para o grande público que afluía de todos os distritos e bairros da cidade.

Ainda me lembro, menina, vendo a chegada de caminhões abarrotados trazendo os moradores da zona rural para participar dos festejos religiosos. Eram homens, mulheres e crianças, com suas roupas domingueiras enchendo a grande praça para assistir as encenações e após acompanhar as procissões que percorriam as ruas principais.

A Matriz fazia parte da vida de todos, do nascimento à morte. Nos momentos dos festejos e do sofrimento. Era a alma e a história da cidade.

No mês de maio aconteciam as coroações a Nossa Senhora da Piedade. Os ensaios começavam um mês antes e aconteciam em casas de família. Me lembro de ensaiar na casa de meu bisavô, Juca Ferreira com minha tia-avó Gení, de voz linda e afinadíssima. Também ensaiamos na casa de Anita Sales que nos acompanhava ao piano na sala imensa de piso de madeira lavada.

Matriz que um dia foi considerada ultrapassada e derrubada. Da janela do sobrado onde viviam meus pais eu via o grande guindaste com uma bola de ferro enorme batendo nas paredes da velha Matriz que se recusava a cair.

Hoje a Matriz não existe mais no plano físico, mas ficou na memória de quantos a conheceram, com todos os seus detalhes, pela importância que teve nos momentos marcantes de nossas vidas. Restam seus vestígios preservados no Museu Histórico de Pará de Minas.

Na minha memória e todos os paraminenses que viram nossa Matriz de pé, ela está lá, intacta, carregando a nossa história e a de nossos ancestrais.

Por Ângela Xavier


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