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10/03/2020 às 19:43h

Ser míope

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Ângela Xavier

Ser míope é uma experiência avassaladora. O míope enxerga muito bem de perto, mas de longe, tudo se esfumaça. De perto enxerga até os poros como se usasse uma lupa.

Por ser míope eu me especializei em tirar espinhos enfiados na pele, bicho de pé, tudo a olho nu, tal o poder de visão de perto que tem o míope.

De longe era um desastre! Quantas situações constrangedoras eu vivi! Quando eu era menina, os óculos eram feios e só usávamos na escola. E mesmo nestas ocasiões sofríamos bullying. Na saída, os meninos andavam atrás de mim gritando: quatro olho! Quatro olho!

Depois de jovem usava fazermos o footing aos sábados para flertarmos com os meninos. Então, nós míopes, precisávamos observar todo de longe com os óculos. Saber quem estava na rua, principalmente onde estava o nosso flerte. Depois, guardávamos os óculos na bolsa e saíamos a passear com as amigas apesar de não sabermos exatamente quem eram os rapazes que circulavam.

Uma vez, houve um baile no Automóvel Clube. Estava super lotado e, num dado momento, eu fui convidada para dançar por um rapaz que era meu flerte. Coração disparado de emoção, sem os óculos, naturalmente, eu o segui para a pista de dança. Havia muitas mesas e pessoas de pé e foi difícil chegar à pista. Lá chegando, eu olhei para a frente e nada do rapaz. Olhei para os lados e nada! Esperei um pouco para ver se ele me encontrava. Nada! Decepcionada eu tomei o caminho de volta para a minha mesa. Não sei o que aconteceu. Ele também terá ficado frustrado. Não mais nos vimos até o final do baile.

Quando ia à praia, eu avisava para meus companheiros que eu ia entrar no mar. Que eles ficassem atentos quando eu saísse porque, entre tantas sobrinhas coloridas, eu não conseguiria encontrar o nosso canto na areia.

Então inventaram a tal lente de contato. Uma incrível solução para todos os meus problemas com a visão. Eu tinha dezessete anos quando fui a Belo Horizonte com meu pai e minha irmã, também míope, ao consultório do oculista que trazia a novidade para o Brasil.

As lentes eram pequenas, mas demandavam um tempo para acostumar-se. O treinamento era longo. Devíamos ficar no consultório com as lentes nos olhos nos exercitando em ler e mover os olhos para um lado e outro. Não era coisa fácil. Interditado encostar nas pálpebras! As lentes poderiam saltar dos olhos. Aquilo era muito incômodo e doía um pouco. Mas a vontade de nos livrar dos óculos era a motivação para suportar tudo aquilo.

Enfim, fui liberada para voltar para casa com as lentes. Os cuidados eram muitos. Lavar antes de usar, tirar com cuidado e guardar numa caixinha própria dentro de um líquido. Apesar de tudo, era uma maravilha! Agora eu podia pintar os olhos, usar cílios postiços, sair para o footing e os bailes sem óculos. E enxergando!

Não demorou e arranjei um namorado. O moço era o mais bonito da Escola Média de Agricultura de Florestal (EMAF). Tão bonito eu seu apelido era Ilusão.

Mas aquelas lentes exigiam muito cuidado ao usá-las. Uma vez, estávamos no sítio de meu pai. Meu irmão, de cima de um pé de ameixa, jogou um cacho da fruta para nós. Por azar ele bateu no meu olho e a lente saltou no chão. Anoitecia e nós procuramos com cuidado na terra e no meio do mato sem sucesso.

Voltamos para casa sem a lente, mas antes de sairmos, eu avisei ao caseiro que havia perdido as lentes. Tive que explicar que era um pequeno vidro redondo e esverdeado que eu usava no olho ao invés dos óculos, E que custava muito caro. Se ele achasse devia guardar com cuidado. No dia seguinte o caseiro apareceu na loja de meu pai com a lente enrolada num papel de bala.

Coisas de tempos passados. Hoje a tecnologia avançou tanto que este relato pode parecer inverossímil.





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