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23/04/2020 às 21:14h

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Na época da colonização da América os africanos eram batizados antes de saírem da África. Pagãos eram proibidos de entrar na colônia portuguesa. Então os padres, ali mesmo no mar da África, jogavam água salgada sobre os homens e os batizavam com nomes cristãos: Franciscos, Marcos,Antônios, Geraldos... Depois molhavam com água salgada as mulheres e as batizavam Marias, das dores, das Mercês, do Pilar, da glória, aparecida... Sobrenome era de Jesus, dos Anjos, dos Santos, Bispo...

No Brasil, eram proibidos de dançar ou de praticar qualquer ritual de origem africana. Em Minas Gerais então, onde havia maioria de africanos trabalhando nas minas de ouro, o rigor era maior. Hoje a única manifestação com cores africanas que temos é o Congado. Uma dança africana para Nossa Senhora do Rosário. Os africanos construíram capelas para a santa, tocaram nas Bandas de Música e levaram suas vozes possantes para os corais das igrejas coloniais.

A conquista da América é outro exemplo visível da estratégia usada para dominarinfelizmente em vigor até os dias de hoje. Os povos que habitam este continente foram exterminados sistematicamente e ainda hoje não são levados em consideração como povo. Os remanescentes dos povos indígenas nos Estados Unidos vivem em reservas e recebem ração alimentar não sendo nem sombra dos bravos e sábios guerreiros que foram em sua origem. Na América espanhola os deuses dos povos conquistados foram taxados de diabos e destruídos. Os dominadores trouxeram um deus branco, de cabelos e olhos claros, muito parecido a eles mesmos e obrigaram aqueles povos a adorá-lo sob pena de morrerem queimados nas fogueiras da Inquisição. No Brasil até os anos 50/60 os rituais africanos praticados às escondidas nos terreiros das casas, eram dispersados a bala e os praticantes presos.

Os povos indígenas do Brasil, tinham o costume de se reunirem, ao cair da tarde, ao redor do ancião e ouvir sobre seu povo, sua origem e a origem de tudo que tinha significado em suas vidas.

Em Minas Gerais, os Xacriabá foram proibidos de praticarem seus rituais pelos fazendeiros que se apossavam pouco a pouco de suas terras e os controlavam ajudados pelo poder reinante. Os índios então usaram uma estratégia inteligente para continuar com seus rituais: iam para dentro da mata, um atrás do outro, todos pisando nas pegadas do primeiro.

Há alguns anos, vieram índios Zoró e Cinta Larga a Mariana, não sei de quem foi a iniciativa de trazê-los. Eu estava fazendo um curso de Literatura Indígena no Festival de Inverno em Ouro Preto e, sabendo da presença desses povos em Mariana, convidei os professores e alunos para uma visita a eles. Em Mariana estava montada uma oca exatamente com eles fazem na floresta e dentro, nos sentamos no chão para ouvir as histórias de um representante do povo Zoró. Ele acendeu uma resina no meio da oca para representar a fogueira e começou seu relato muito expressivo em sua língua nativa e era traduzido pelo representante dos Cinta Larga. O que me chamou a atenção foi a afirmação do índio Cinta Larga de que ele não sabia contar as histórias de seu povo porque seu pai havia morrido quando ele tinha apenas 6 anos de idade e não tivera tempo de transmitir os conhecimentos a ele. Dizia isso se desculpando como se não tivesse uma perna ou um braço, como se não fosse uma pessoa inteira. Isso me marcou muito. (continua)


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