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15/05/2020 às 10:18h

Identidade Capítulo 4

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Em meio às mudanças, muitas vezes drásticas, o que transmite segurança e um sentimento de continuidade da vida, são as tradições aprendidas dos ancestrais.

Em nossa sociedade capitalista os velhos foram abandonados. Eles que são os guardiões do passado. Eles que unem o começo ao fim, ligando o passado ao futuro. A sociedade capitalista só valoriza os braços fortes para o trabalho, a produção, o lucro. Como disse Ecléa Bosi: “ A sociedade capitalista desarma o velho mobilizando mecanismos pelos quais oprime a velhice, destrói os apoios da memória e substitui a lembrança pela História oficial celebrativa”. O velho, na sociedade capitalista, apenas sobrevive. Sem oportunidade de lembrar e ensinar ele sofre as doenças da inação, a memória se torna cada vez mais viva e ele não pode compartilhar. Suas lembranças remetem a prédios, praças e árvores que já não existem, pois, as necessidades da sociedade capitalista não considera a importância desses marcos, desses vestígios de vidas inteiras. Essa memória do passado permite ao homem ter os pés firmes para projetar o seu futuro. Desconhecer sua História, sua origem o torna frágil e presa fácil de ser dominado por outra cultura que se impõe.

Considero Ouro Preto um lugar privilegiado por conservar seu casario, seus monumentos. A tradição se mantém viva. Eu sou natural de Pará de Minas e vi a cidade em que nasci e me criei, ser destruída, casa por casa, até a igreja matriz, o armazém da esquina, o prédio da Câmara Municipal, a Prefeitura. Hoje a população se lamenta pelas perdas inclusive reconstruindo alguns logradouros baseando-se em fotografias antigas.

Eu vi a destruição da antiga matriz, lugar onde todos nós habitantes da cidade havíamos sido batizados, onde fizemos nossa primeira comunhão, onde coroamos Nossa Senhora, onde nossos pais se casaram, onde minha bisavó tinha um banco cativo sua doação à matriz. Todos nós conhecíamos cada canto, cada pintura, cada imagem, até a árvore que ficava na frente da igreja e que era enfeitada com luzes coloridas no natal e o sino que badalava às 6 horas da manhã chamando os fiéis para a primeira missa. Uma igreja da qual conheço muitas histórias contadas pelo meu avô e que hoje só existe na minha memória e na de pessoas que chegaram a vê-la de pé. Hoje, no local onde ficava a igreja existe uma praça, muito feia por sinal e que não significa nada.

Em Ouro Preto eu estudei Restauração e conservação de Bens Culturais e tive o privilégio de ser aluna de um dos pioneiros desta ciência no Brasil, Jair Afonso Inácio. Com ele percorremos as ruas da cidade observando os estilos, a forma das construções, as igrejas, as pinturas, esculturas, a devoção. Aprendemos a forma certa de recuperar os bens coletivos de valor histórico e de significado para a comunidade. Aprendemos a respeitar a obra da forma que foi feita sem interferir, apenas salvar. ( continua)

Por Ângela Xavier

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