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26/05/2020 às 09:49h

Identidade – Último Capítulo

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Lecionei História para alunos de ensino Médio e Magistério em Ouro Preto. Eu tinha a preocupação de transmitir aos jovens que a História não é algo distante no tempo, nem protagonizada por reis e generais. A História é feita todos os dias e nós somos seus agentes. Assim, começávamos fazendo árvore genealógica e recolhendo histórias de família. Então os alunos descobriam que as histórias de suas famílias se confundiam com a História da cidade. O avô ou bisavô, que vivia em um pequeno distrito e era tropeiro se mudara para Ouro Preto depois da mudança da capital para Belo Horizonte. Comprara uma casa pois tudo estava barato. Ele montou um armazém e criou aqui a sua família. Na linha do tempo os fatos familiares eram colocados juntos com fatos da História do país. A dificuldade surgiu ao trabalhar desta forma com alunos que diziam não saber nada sobre os avós, alguns nem sobre o próprio pai. Jovens sem referência familiar com dificuldades no aprendizado e perdidos na sociedade.

Essa a estratégia usada pelos dominadores: sem cultura, sem tradições familiares, sem crenças e costumes próprios o homem se perde e é facilmente subjugado.

Em Ouro Preto eu percebi a grandeza da História, da arte do período colonial e tudo preservado. Muitas instituições, sempre presididas por especialistas de fora, muitos títulos e autoridades, festas tradicionais continuavam a acontecer. E nessa hora o povo era protagonista. A cultura e as tradições se mantiveram, as referências estão vivas ainda e o povo sabe de muita coisa. Através de conversas com pessoas mais idosas muito aprendi sobre aquilo que está na alma do ouro-pretano. É importante resgatar as crenças, os sonhos, os medos. E em toda a cidade se ouvem as mesmas histórias que estão relacionadas com tesouros ou fantasmas. Então eu me deparei com o valioso imaginário popular. Os monumentos e casario deixaram de ser distantes e frios para se tornarem familiares e cheios de vida. Eu sempre digo: Cada sítio profanado, cada casa derrubada, destrói os vestígios das histórias contadas pelo povo.

Vou dar um exemplo do que estou dizendo: o prédio onde hoje está a Associação Comercial na rua são José. Naquele local esteve um dia a casa do Tiradentes. Quando ele foi condenado a morrer na forca sua casa foi derrubada e o terreno salgado para que nenhuma edificação fosse erguida naquele local. Ali foi plantado um marco de ignomínia. Nenhum sino de nenhuma das igrejas de Vila Rica badalou quando ele foi morto. Minto: o sino da capela do Padre Faria badalou. Trinta anos depois o Brasil ficava independente com D. Pedro I, neto da rainha D. Maria I que condenara Tiradentes à morte. Na noite de 7 de setembro de 1822, um grupo de pessoas foi até o terreno salgado onde um dia se ergueu a casa do Tiradentes e deu vivas à sua memória.

Juscelino Kubitschek conhecia esta história e inaugurou Brasília num 21 de abril de 1960 e levou o sino da capela do Padre Faria com seu zelador para tocar no momento da grande festa. JK sabia dessas coisas e valorizava nossa cultura e demonstrou isso durante toda a sua carreira política.

Ângela Xavier


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