Capa da Página Lembranças - Cultura - JC Notícias Capa da Página

Icone previsão PARÁ DE MINAS - 14º MIN 32º MAX

Cadastre seu e-mail e receba nossas novidades

Icone IconeNotícias - Cultura

12/03/2021 às 15:57h

Lembranças

Facebook

Antigamente havia um costume muito interessante que era fazer visitas. As pessoas costumavam visitar os parentes, amigos e vizinhos. Visitas de cerimônia. Sentavam-se todos na sala de visitas, os filhos eram apresentados e os anfitriões ficavam “fazendo sala”. Num dado momento era servido o cafezinho e biscoitos, geralmente feitos em casa.

A tia Maria fazia doces de frutas cristalizadas deliciosos que guardava numa cristaleira de vidros decorados com pássaros. Ainda me lembro da satisfação de todos, quando ela tirava sua doceira com os tais doces e servia. A indústria alimentícia era incipiente e nas casas se fazia de tudo.

Toda família tinha seu jogo de café e de chá exclusivo para visitas. Quanto mais cerimoniosa fosse a visita, mais refinado era o jogo de café usado. Em casa de meus pais os jogos de café e chá eram japoneses, ganhos no seu casamento e eram feitos de porcelana finíssima. Pareciam cascas de ovos e só eram usados nessas ocasiões.

Quando eu e a Maria Olga, minha irmã, aprendemos a fazer café, fomos solicitadas pelos nossos pais a fazer o café que seria servido às visitas - um casal de amigos de certa cerimônia. Lembro da aflição que sentimos, pelo receio de que o café não ficasse no ponto. Ao servi-lo, ouvimos o comentário: “Está ótimo! Já podem se casar!”

Depois, fomos solicitadas a tocar violão e cantar. Nós éramos adolescentes e estávamos aprendendo a tocar violão. Meu pai adorava nos exibir. Cantamos uma música que era sucesso do Trini Lopes, “Cuando calienta el sol”, em duas vozes. Foi um sucesso e as visitas comentaram sobre a cor de jambo de nossa pele.

Meu pai contava que a casa de sua mãe era muito visitada. Havia uma visita, em especial, que era frequentemente. A mulher falava muito e nunca ia embora. Almoçava, tomava café e jantava falando na cabeça da minha avó, para seu total desespero.

Um dia, ao perceber a chegada da dita cuja, minha avó correu e se escondeu atrás do guarda-roupa do quarto do seu pai, ainda vivo. Meu pai, sentindo o mesmo desânimo em receber tal visita, correu para se esconder, por coincidência, no mesmo lugar, assustando minha avó.

Meus primos mais velhos, já namorando sério ou noivos, costumavam visitar meus pais aos sábados à tarde ou no domingo, com a noiva. Quando se casavam visitavam oficialmente todos os tios.

Uma visita sempre querida era o tio Américo. Ele chegava sempre quando estávamos terminando de almoçar. Mamãe ficava preocupada com receio que ele se sentasse numa cadeira com comida derramada. Ele sentava depressa antes que ela limpasse e dizia: “Vinde a mim as criancinhas, delas será o reino dos céus.” Ele brincava, contava casos pitorescos e fazia perguntas impossíveis de responder tipo: “O que você prefere: comer uma empada ou ir até Belo Horizonte de fasto?” Ou então falava um trava línguas especial que ninguém conseguia repetir: “Picles com dogles faz ficar esparipatético; cabo de chapéu de sol torrado cheira solado de sapato de defunto velho”.

As mulheres costumavam fazer pães, biscoitos e mandar para os vizinhos, que devolviam as travessas cheias com outros quitutes, preparados na casa. Todos os quintais tinham muitas frutas e ninguém comprava. Usava-se trocar as frutas com os vizinhos, às vezes até por cima do muro de divisa dos quintais.

Tempos antigos que não voltam mais. Viram histórias de se contar a beira do fogo.

Ângela Xavier


Galeria de fotos

Clique nas imagens para ampliar: