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10/02/2021 às 08:58h

Nossas referências históricas

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Angela Leite Xavier

Por que não podemos expandir nossas cidades e modernizá-las na horizontal deixando a história de sua origem intacta?

Imaginemos que maravilha seria se todas as cidades preservassem sua origem, seu começo com as casas, o arruamento e tudo mais, intactos? Nada disto impediria o seu crescimento e modernidade, mas teríamos a riqueza de nossa história. A riqueza histórica e cultural de cada comunidade seria enorme. O sentimento de pertencimento estaria vivo nas novas gerações. Um jovem diante da casa que pertencera a seu bisavô teria muitas histórias para contar. É construir o futuro sobre bases sólidas, sabendo de onde viemos. E uma pesquisa atual precisa de novo olhar que inclui fatos e personagens invisibilizados pelos olhares anteriores.

Os valores, os saberes dos povos originários desta terra e daqueles que foram trazidos da África deixam a obscuridade e se mostram através de novas pesquisas feitas com o olhar mais abrangente e real.

As manifestações religiosas indígenas e africanas foram proibidas como forma de dominação. Sem sua cultura própria o outro é obrigado a aceitar a cultura do dominador e assim fica subjugado aos seus valores.

Os costumes e crenças dos africanos trazidos para cá como escravizados foram duramente reprimidos até início do século XX. Os que vieram eram de povos diferentes e de regiões diversas do grande continente chamado África. Entre eles mesmos não conseguiam se entender.

Aqui em Minas os negros passaram também a pertencer a Irmandades laicas como todos na sociedade colonial. Foi a forma como a sociedade se organizou. Criaram as Irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos onde se ajudavam, onde tinham seu lugar na sociedade e podiam festejar, à sua maneira, os santos negros como santa Efigênia, São Benedito, São Elesbão e outros.

O congado, ritual negro mais popular nas Minas, foi proibido no início do século XX sob o argumento de que não eram rituais da Igreja Católica. Assim, por muitos anos foram proibidos os congados em muitas arquidioceses.

Esta proibição terminou nos anos 70 com o Concílio Vaticano II que considerou válidas todas as manifestações em homenagem a Nossa Senhora e santos da Igreja.

Lembro de ter visto, na minha infância, belíssimas apresentações de grupos de congado em Pará de Minas. Eu era pequena e havia muita gente na rua Direita para ver os dançantes. Eu estava com minha mãe na farmácia Santa Maria do tio Raimundo. O Luís, que era um jovem, me colocou nos ombros e eu pude ver. Muitos negros vestiam roupas coloridas cheias de espelhinhos que brilhavam, chapéus de onde saiam fitas de todas as cores e amarrados aos pés, latinhas cheias de pequenas pedras que davam o ritmo. Tinham nas mãos grandes varas e num dado momento, batiam suas varas que faziam um barulho de luta. Era inesquecível!

Lembro também de uma canção que minha mãe cantava e dizia que era do congado:

“Minha sereia, sereia do mar, baleia grande quer me matar, ai, ai!” E ao dizer isto jogavam a cabeça para trás.

Nossa história foi narrada, no início, do ponto de vista do português e depois, daqueles que estavam no poder. Por isto considero da maior importância, ter um olhar a partir daqueles que foram invisibilizados nos relatos históricos: os indígenas, povos originários desta terra e os africanos e seus descendentes.



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