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25/11/2020 às 15:51h

O legado de minha mãe

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Quando cai a primeira chuva sobe um cheiro gostoso de terra molhada pelo ar. Os pássaros cantam. O cheiro de telha molhada da minha cozinha evoca outras cozinhas de avós, de fogões a lenha, de outros tempos.

Minha mãe tinha medo de chuva forte, tempestade com raio. Cresceu com este medo herdado de sua mãe que queimava ramos bentos durante as tempestades. Ramos guardados para este fim desde a Procissão de Ramos da Semana Santa.

Mas, este medo minha mãe ocultou de seus filhos, protegendo-nos da angústia que ela própria sentia diante das tempestades. Ao contrário, ela nos fez amar a chuva. Os pingos caindo nas latas colocadas por ela debaixo das goteiras do telhado, eram música aos nossos ouvidos. Cada latinha emitia um som e neste embalo dormíamos felizes.

Quando chovia granizo ela corria e nos chamava para recolher as pedrinhas de gelo que colocávamos na boca como se fosse um maná do céu.

Hoje amo a chuva, o cheiro da terra e das telhas molhadas. Paro para apreciar da janela os raios iluminando o céu escuro.

Como este, lembro de outros momentos mágicos que ela proporcionou a mim e aos meus irmãos.

À noite mamãe contava histórias. Não havia televisão e dormíamos assim que escurecia. Eu me lembro especialmente da história da Maria Pintada, uma menina que não queria comer verduras, nem legumes, nem frutas. Por isto ela era magra e pálida, tanto que um dia, um vento forte a derrubou. Depois disto ela começou a comer. Esta história era dirigida em especial a minha irmã mais velha que só gostava de café com leite e das quitandas. Eu sempre comi bem, então, ouvindo a história, eu já ia para o terceiro prato quando minha mãe percebia e dizia: Basta!

Minha mãe sempre cantava enquanto fazia o serviço de casa. Sua família era de músicos. Cantava no coral da igreja nas missas de domingo e sempre que se reunia com sua família.

Com minha mãe aprendi a apreciar o silêncio das manhãs, a comer lima cortada em gomos formando livrinhos, a acordar às cinco horas da manhã e sair para a igreja a comungar. Com ela aprendi a respeitar o sono alheio sempre andando pé ante pé, falando aos cochichos e jamais acendendo a luz num cômodo onde alguém estivesse dormindo.

Aprendi a gostar de cultivar flores e hortaliças. Eu a via cuidar dos canteiros floridos com suas flores preferidas: amor perfeito, cravo, rosa e ervilha de cheiro. Eu e minha irmã ganhamos, cada uma, um canteiro para plantar. Hoje nós, seus filhos, temos alegria em cultivar, mesmo aqueles que moram em pequenos apartamentos têm seus vasinhos de flores e ervas.

Quero manter ao longo de minha vida este olhar de criança que vê por primeira vez, que descobre, que toca para sentir a textura, que cheira, que aprecia cada despertar, cada anoitecer, cada nascer da lua, cada movimento da natureza.

À minha mãe, Olga, meu eterno amor e gratidão.

Ângela Xavier

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