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17/11/2020 às 20:37h

Papo de Onibus

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“A senhora só tem três filhos? Que tranquilidade! Eu tive onze. Pois é. Tenho 9 prá tirar o meu sossego. Mas a gente era boba. Achava que podia ir pondo menino no mundo.

Eu dei de mamá prá dois de uma vez. Eu tava amamentando um menino e ele já tinha 1 ano e 3 meses quando fiquei grávida. O médico até falou para eu tirar o peito dele porque ia prejudicar a outra. Eu tentei, mas o coitadinho secou. Ficou magro e eu tornei a dar o peito. Quando a menina nasceu era um peito prá um, outro pro outro. Eu já não aguentava mais e meu marido dizia: deixa ele mamar. Mas quando ele tinha quase 2 anos eu tirei o peito dele de vez. O menino quase foi embora. Pensei que ia perder meu menino. Ficou magro, descascou a pele toda e teve diarreia sem parar. Foi o Doutor Anísio quem salvou ele.

Quando eu tava dando mamá pros 2 e ainda tinha outros dois maiores, meu marido sismou de ir passear em Aparecida. Só Deus sabe o aperto que eu passei com esses meninos nesta viagem!

Meu mais velho tem, hoje, 45 anos e o mais novo 23. Dois deles me dão muito trabalho por causa de bebida. O de 25 anos está fazendo tratamento. Ele mesmo quis. A mulher largou dele por causa da bebida. Não tem filho. Eu to ajudando como posso. O outro tem 27 anos. Começou a beber depois que a mulher largou dele. Hoje tá com outra, mas não tira aquela da cabeça.

Também eles foram morar juntos muito novos. Ela tinha 15 e ele 16 anos, e ela já tinha um filho. Ficou com o meu filho 11 anos e teve 3 filhos dele. Quando o pequeno estava com apenas 3 meses, mamando ainda, ela tirou ele do peito e largou tudo para ir viver com outro. Uma mãe desalmada. E o homem que tá com ela hoje não pode nem ouvir falar em menino. Detesta! Meu filho vivia em Brasília e deixava os 3 sozinhos para ir trabalhar. Fazia miojo e deixava em 3 cumbucas uma para cada um e a maior de 4 anos ficava tomando conta do bebê. Acho que denunciaram ele. O Conselho Tutelar foi lá e não deixou continuar esta situação. Então eu arranjei emprego prá ele aqui e fui eu quem criou os seus filhos. Hoje a menina está com 12 anos.

É doida comigo. Eles são muito bonzinhos e educados. Eu fiz um barracão no quintal da minha casa pra eles. Agora não sei como vai ser porque estão dormindo todos no mesmo quarto. E ele tá com outra. A moça tem 22 anos. É boazinha. Tem boa vontade para aprender as coisas porque não sabia fazer nada. Eu que to ensinando. Mas lavar roupa e vasilha ela não aprende. É um horror. Até comprei um tanquinho prá ela.

Eu olhava aquela roupa no varal secando e perguntava: Como você tem coragem de dar essa roupa pro seu marido usar? As vasilhas a gente tem que lavar tudo de novo prá usar. Mas ela é amorosa. Aguenta mais do que eu do marido bêbado. Tem carinho com ele. Mas ele fica com sentido na outra. Homem não aceita ser trocado por outro. Quando meu marido morreu eu fiquei sozinha 3 anos. Hoje eu tenho um companheiro. Homem muito bom. É doido com os meninos. Como se fossem seus próprios netos.

Ganhei muito dinheiro com verdura. Plantava usando só esterco de vaca e vendia pro mercadinho. Até fiz a minha casinha. Ela não tinha laje. Agora é que eu to batendo laje. Ficou mais quente, mas é melhor. Vou por telha de amianto.”

O ônibus parou e a mulher desceu. Ia ficar no caminho para um pequeno povoado onde morava uma amiga. Despediu-se e me deixou pensativa sobre a vida o restante de minha viagem.

Por Ângela Xavier


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