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20/10/2020 às 14:56h

Um dia, em ouro preto

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Manhã de sábado, céu azul. Promessa de novidades. Muitos turistas chegam com suas câmeras, celulares, chapéus na cabeça bermudas e tênis. Viajar no tempo do calor no cone sul é férias de verdade. Magno espera na porta da Basílica de Nossa Senhora do Pilar, que este seja um sábado movimentado.

A algazarra de um grupo estudantil chama sua atenção. Eles vão chegando, vestindo camisetas de sua escola, mochilas e celulares. Junto estão professores, e um guia turístico local. O guia se empenha em organizar o grupo ao seu redor auxiliado pelos professores. A turma está dispersa mais entusiasmada por estar em excursão com os colegas de classe do que com os monumentos históricos, objetivo de sua excursão.

O guia bate palmas e, por fim, consegue a atenção do grupo. Começa a falar: “Vocês estão em uma cidade do século XVIII que nasceu por causa do ouro abundante encontrado nos riachos e minas. Prestem atenção ao estilo das construções e nas obras de arte.”

O guia dá uma pausa na tentativa de conseguir a atenção do grupo falante posicionado mais atrás. Diante do silêncio que se fez, ele retomou a palavra: “Sei que entre vocês não existem índios e que nós vamos poder fazer um passeio agradável e instrutivo na cidade histórica de Ouro Preto.”

Magno ouve aquilo e se revolta lá por dentro. Ele é descendente dos povos originários do Brasil e de africanos portanto não aceitava aquela fala preconceituosa de um guia turístico reforçando este conceito para aquele grupo de jovens.

Pensou lá consigo mesmo: “Esse cara não sabe de nada. Fica repetindo nomes e datas diante de cada monumento e os turistas ouvem e depois esquecem tudo!” Mas não disse nada.

Um casal entrou para visitar a igreja de Nossa Senhora do Pilar e ele foi o seu guia. O grupo de estudantes vinha logo atrás e ele tomou a palavra e em alta voz, adiantou-se ao guia que acompanhava o grupo e falou:

“Estamos diante de uma igreja construída nos moldes do barroco europeu que aqui teve o brilho da contribuição dos africanos com seu conhecimento da natureza e suas belas cores. As autoridades se empenharam em criar um local sagrado para o Deus trazido da Europa. O ouro, a suntuosidade, o cheiro do incenso e os cantos sagrados se destinavam a impressionar e conquistar definitivamente a populações nativas, adoradoras da natureza e aos africanos recém-chegados para trabalhar aqui. Este foram arrancados de suas terras e trazidos para um lugar longínquo e diferente para trabalhar pesado. E por onde passavam deixaram alegria, amor, música, dança, vida!”

Os jovens estudantes ouviram atentos as palavras de Magno numa oportunidade rara de ouvir um relato com a valorização da contribuição africana na construção das belezas do barroco mineiro. 

Ângela Xavier


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