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Para tirar jovem do América em 2019, Cruzeiro forjou 'peneira' e empregou pai como 'olheiro' em contrato de quase R$ 1 milhão

14/07/2020 às 09:15h

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Enquanto dívidas cobradas na Fifa batiam à porta, o Cruzeiro se comprometeu a pagar, no início de 2019, durante a gestão do ex-presidente Wagner Pires de Sá, quase R$ 1,5 milhão para ter um jovem de 14 anos em suas categorias de base. Isso é o que aponta uma série de documentos obtidos pelo Superesportes.

Como não poderia ter vínculo profissional com Vitor Roque, a Raposa se utilizou de outro expediente: assinou um contrato de prestação de serviços com o pai do garoto no valor total de R$ 963 mil. A função? Olheiro! A atividade? Acompanhar, quando ele quisesse, nos jogos que ele determinasse, possíveis atletas que poderiam ser captados pelo Cruzeiro.

As cifras não pararam por aí. O agente paulista André Cury, intermediário da negociação, também recebeu uma carta de compromisso de pagamento do Cruzeiro no valor de R$ 500 mil. Cury, que alega não ter recebido nada até aqui, havia assumido o agenciamento de Vitor em novembro de 2018.

A reportagem ainda teve acesso a documentos que desvendam o jogo de cenas feito pela antiga diretoria. A antiga gestão do clube forjou uma peneira para justificar que não estaria “aliciando” o jogador do América. Vitor Roque defendia as cores do Coelho desde 2015 e, de uma hora para outra, deixou o Lanna Drumond com destino à Toca da Raposa I.
Assinatura de contrato
Em 1º de março de 2019, o Cruzeiro acertou vínculo de formação com Vitor Roque, promessa do América, então com 14 anos. O contrato foi assinado por Wagner Pires de Sá.

A vigência do documento vai até fevereiro de 2025. Ficou acordado que o Cruzeiro repassaria ao jogador uma bolsa aprendizagem, praxe em assinaturas de contrato de formação. O clube se comprometeu a pagar, mensalmente, R$830 ao atleta (R$ 50 com plano de saúde, R$ 50 com assistência odontológica, R$ 20 com assistência psicológica, R$ 100 com educação, R$ 300 com alimentação, R$ 10 com transporte e R$ 300 com bolsa aprendizagem).

Se ao fim do vínculo de formação Vitor Roque optar por não assinar o contrato profissional com o Cruzeiro, o atual acordo prevê que ele terá de pagar ao clube 200 vezes o valor gasto em sua formação (cerca de R$ 165 mil, além de uma taxa descrita como ‘convivência familiar’).

Em 1º de abril, o Cruzeiro também firmou um instrumento de vínculo de atleta não profissional até 30 de março de 2022. O documento foi assinado pelo ex-vice-presidente de futebol Itair Machado.
Intermediário
Em 23 de janeiro de 2019, cerca de três meses antes de acertar oficialmente com Vitor Roque, no entanto, o Cruzeiro já havia assinado um compromisso de pagamento de comissão com a Link Assessoria, do agente André Cury. O objeto do contrato era, justamente, a intermediação do acordo com Vitor Roque. Ou seja, o clube já tinha pelo menos indício de que ‘contrataria’ o jogador em meados de janeiro de 2019.

O Cruzeiro comprometeu-se a pagar R$ 500 mil em dez parcelas de R$ 50 mil (entre 15 de março e 15 de dezembro de 2019). O clube poderia parar de transferir o dinheiro a Cury se o vínculo com Vitor Roque fosse quebrado por algum motivo nesse período, o que não aconteceu.

À reportagem, André Cury garantiu que o Cruzeiro atrasou todas as parcelas e ainda não pagou nem um real sequer pelo negócio. “Essa pergunta é uma piada? Não recebi nem desse nem de nenhum outro”, disse. Questionado sobre notas fiscais canceladas emitidas pela Link Assessoria, a que o Superesportes também teve acesso, ele justificou. “Foram canceladas justamente porque eles não pagam. Não entrou pagamento dele (Roque), nem de Zé Eduardo, nem do Maurício, nem de nenhum”, complementou.   
Contrato com o pai de Vitor Roque
Cerca de quatro meses após assinar com Vitor e sete meses depois do acordo de intermediação com Cury, o Cruzeiro ainda contratou, em julho de 2019, os serviços da VH Assessoria Esportiva LTDA. A empresa foi aberta em 3 de março, tendo como sócios o pai e a mãe de Vitor Roque, Juvenal Ferreira e Hercília Ferreira.

O contrato foi assinado em 5 de julho de 2019 pelo ex-presidente Wagner Pires de Sá e por Juvenal Ferreira. Um dos agentes de Vítor Roque, Ehler Pessoa aparece nos documentos como testemunha do acordo.

A VH Assessoria teria que prestar, até 28 de fevereiro de 2025 - mesma data do fim do vínculo do Cruzeiro com Roque -, serviços de observação técnica, comparecendo a jogos e encaminhando jogadores ao Cruzeiro. Detalhe: caberia exclusivamente à empresa definir em quais partidas ou quando ela realizaria o trabalho.

Pelo serviço, a VH - que tem as iniciais do nome do jogador, Vitor Hugo Roque Ferreira -, receberia um montante total de R$ 963.997,00. O acordo prevê o pagamento da seguinte maneira:

Uma parcela de R$ 30 mil em julho de 2019
Cinco parcelas de R$ 26.571 entre agosto e dezembro de 2019
Duas parcelas de R$ 16.571 em janeiro e fevereiro de 2020
Doze parcelas de R$ 12 mil entre março de 2020 e fevereiro de 2021
Doze parcelas de R$ 15 mil entre março de 2021 e fevereiro de 2022
Doze parcelas de R$ 17 mil entre março de 2022 e fevereiro de 2023
Doze parcelas de R$ 20 mil entre março de 2023 e fevereiro de 2024

Documentos obtidos pelo Superesportes revelam ainda que a ordem de pagamento a Juvenal foi feita pelo atual supervisor administrativo do Cruzeiro, Benecy Queiroz, ao então diretor financeiro, Flávio Pena, em 15 de julho de 2019. Benecy também havia sido responsável por assinar a carta de compromisso de pagamento a André Cury, formalizada em janeiro.

Questionado pela reportagem sobre sua participação nas negociações, comprovadas nos documentos, Benecy deu a seguinte explicação. “Nem sei ao que se refere isso aí. Eu não posso informar nada sobre isso. Eu não participo desse tipo de negócio. As assinaturas são de encaminhamento e documentação. Essa é minha função”, disse.

“Formatação, o que gerou, o que foi feito, por que, etc, isso não me diz respeito, não é minha função”, complementou. A reportagem insistiu sobre o objeto do contrato do Cruzeiro com Juvenal, uma vez que Benecy foi o responsável por liberar a ordem de pagamento. "Não sei nada disso. Não entro nesse assunto porque não me diz respeito. Eu apenas encaminho a documentação”, reforçou.  

Nos documentos obtidos pela reportagem ainda é possível conferir que as notas fiscais da empresa do pai de Vitor Roque eram emitidas pela secretária do escritório de Ehler Pessoa, agente do jogador em parceria com Cury. O Superesportes questionou Ehler sobre seus rendimentos com esse contrato.

“Foi uma negociação que nem fui eu que fiz, foi o André Cury. Como somos agentes do pai do Vitor Roque, ele pede que a gente emita notas fiscais para ele. A gente já faz isso para um tanto de jogador, um monte de empresário, e emitimos as notas para ele como forma operacional”, explicou. “Não cai nenhum centavo desse dinheiro na minha conta. A conta é deles, eu não tenho nada a ver com isso”, garantiu.

Embora tenha assinado como testemunha do contrato entre Cruzeiro e VH Assessoria, Ehler disse desconhecer detalhes do acordo. “Nem eu sei. Pelo pouco que percebo, ele tem muitos contatos, trouxe meninos novinhos de Coronel Fabriciano (cidade do Vale do Aço) ao Cruzeiro. Não sei se é isso, se não é, mas é um serviço que ele presta. Eu só ajudo a emitir a nota fiscal”, garantiu.
Peneira forjada
Além das altas cifras empenhadas na negociação por Vitor Roque, então com 14 anos, o Cruzeiro fez um verdadeiro jogo de cenas para tentar justificar que não havia assediado o jogador do América. Roque defendeu as cores da equipe do Lanna Drumond até dezembro de 2018 e não apareceu mais para os treinamentos em fevereiro de 2019, quando deveria se reapresentar. Naquele momento, ele já havia acertado com a Raposa.

Em 22 de março, portanto três meses após definir o pagamento de intermediação a André Cury pela contratação de Vitor Roque, o Cruzeiro divulgou em seu canal do Youtube e em seu site oficial um vídeo simulando a realização de uma peneira. Vitor Roque teria sido descoberto nesse evento. Naquela data, porém, o jogador já tinha contrato assinado havia mais de 20 dias.

Além dos documentos, diferentes fontes ouvidas pela reportagem confirmaram que não existiu qualquer tipo de peneira envolvendo Vitor Roque na Toca da Raposa I. Assista, no vídeo abaixo, ainda disponível no canal oficial do Cruzeiro no Youtube, a simulação feita pela antiga gestão do clube.

Responsável por levar o jogador ao Cruzeiro, André Cury também foi questionado sobre a realização da peneira. “Eu vou saber se o Cruzeiro forja peneira? Eu não sei de nada disso. Eu levei o jogador para o Cruzeiro. Tinham um problema com o América lá e depois resolveu. Tem um pacto de cavalheiros, depois eles se acertaram”, afirmou.

Outro agente de Vitor, Ehler Pessoa também desconversou sobre a peneira. Ele afirmou que não pode garantir que foi um evento forjado, mas disse que "quando ele (jogador) chegou lá (Toca I) não fez peneira praticamente nenhuma. Quando o Cruzeiro viu a cara dele, já disse que ele ficaria". Vale lembrar, no entanto, que naquele momento o contrato da Raposa com Roque já estava assinado.  
Batalha nos bastidores  
Revoltado com a atitude do Cruzeiro e ciente de que se tratava de um assédio ao seu jogador, o América iniciou uma batalha nos bastidores. Então diretor de base do Coelho, Paulo Bracks - hoje executivo do futebol profissional -, deu declaração forte ao Superesportes em 23 de março de 2019, no dia seguinte à divulgação do vídeo da suposta peneira. “O fato é que o Cruzeiro roubou um jogador da base do América”, disparou Paulo Bracks na oportunidade.

Por conta da ida de Vitor Roque para a Toca I, o América denunciou o Cruzeiro ao Ministério Público do Trabalho em abril de 2019. Paralelamente, o clube contou com o apoio do Movimento de Formação do Futebol de Base (MFFB), formado por coordenadores de bases de clubes do futebol brasileiro. O grupo entendeu que não houve ética por parte do Cruzeiro na condução da negociação com o jovem atacante.

Em 17 de abril do ano passado, já como primeira consequência do aliciamento, o Cruzeiro foi desconvidado da Nike Premier Cup, torneio da categoria sub-15. O impasse entre os clubes foi fator determinante, inclusive, para a não realização da tradicional Taça BH de 2019, torneio disputado por 34 vezes. Embora a Federação Mineira de Futebol (FMF) tenha culpado a falta de datas no calendário, foi a briga entre os clubes de Belo Horizonte o principal motivo do cancelamento da competição.

Depois de muita pressão, o Cruzeiro cedeu e acabou transferindo ao América, em maio de 2019, 35% dos direitos econômicos de Vitor Roque.
Outro lado
Para investigar esse e outros contratos suspeitos nas categorias de base, o novo presidente do Cruzeiro, Sérgio Santos Rodrigues, formou uma comissão. Em 10 de junho, o clube informou que o grupo já havia começado a trabalhar. Os nomes de seus integrantes não foram divulgados na oportunidade.

“O Cruzeiro ainda destaca que, em caso de ilegalidades, as tratativas serão rescindidas unilateralmente e os responsáveis serão denunciados às autoridades competentes”, publicou o Cruzeiro no mês passado.

A reportagem procurou Juvenal Ferreira, pai de Vitor Roque. Ele atendeu ao telefone na tarde dessa segunda-feira e logo foi questionado sobre o contrato de prestação de serviços que assinou com o Cruzeiro em 2019. Ele pediu que a reportagem o procurasse mais tarde e enviasse as perguntas por Whatsapp, o que foi feito. Juvenal, no entanto, não respondeu mais aos contatos até a última atualização desta reportagem.

Fonte: Super Esportes

Foto: Reprodução/Youtube

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