27/03/2026 às 09:57h
A indústria automotiva brasileira atravessa um momento de transformação marcado pelo aumento das importações e pela mudança no modelo de produção adotado por algumas montadoras que chegaram recentemente ao país. Entre elas estão BYD, GWM e Chery, que têm ampliado presença no mercado local com veículos eletrificados e híbridos, muitas vezes utilizando sistemas produtivos baseados em CKD (Completely Knocked Down) e SKD (Semi Knocked Down).
Esses modelos consistem basicamente na importação de conjuntos completos ou parcialmente desmontados, que são apenas montados no país. Embora o processo permita classificar o veículo como produzido localmente, o impacto na cadeia industrial é significativamente menor quando comparado ao desenvolvimento e fabricação integral do automóvel no Brasil.
O setor automotivo brasileiro possui capacidade produtiva instalada para cerca de 4,5 milhões de veículos por ano. Em 2025, contudo, a produção ficou em torno de 2,49 milhões de unidades, evidenciando um nível relevante de ociosidade industrial. Ao mesmo tempo, o mercado registrou aproximadamente 2,55 milhões de emplacamentos de veículos de passeio e comerciais leves, com crescimento da participação de modelos importados.Nesse contexto, cresce a preocupação entre fabricantes com operação industrial consolidada no país, como a Volkswagen. A VW defende que o fortalecimento da indústria nacional depende de políticas que priorizem desenvolvimento local, engenharia instalada e alto índice de nacionalização de componentes.A montadora alemã afirma que seus veículos produzidos no Brasil alcançam níveis elevados de conteúdo nacional. Em modelos com motorização flex, o índice médio chega a cerca de 85% de peças produzidas no país. Além disso, aproximadamente 80% dos 750 fornecedores que compõem sua cadeia têm operação instalada em território brasileiro.
Esse adensamento produtivo mobiliza diversos setores industriais. Um exemplo é o aço, que representa cerca de 70% da composição estrutural de um automóvel. Somente a operação brasileira da Volkswagen movimenta cerca de 26 mil toneladas do material por mês, estimulando atividades em siderurgia, estamparia, transporte e engenharia.
Quando o modelo CKD ou SKD é utilizado, parte significativa dessa cadeia deixa de participar do processo produtivo. Componentes estruturais, sistemas eletrônicos e conjuntos mecânicos chegam prontos ao país, reduzindo a demanda por fornecedores locais e limitando a geração de valor dentro da economia brasileira.
Além do impacto na cadeia de autopeças, o modelo também reduz o envolvimento de engenharia e desenvolvimento tecnológi-co local. A fabricação plena de um veículo envolve atividades complexas que vão desde o projeto de componentes até testes de durabilidade, calibração de sistemas e adaptação a combustíveis e condições de uso do mercado brasileiro.
Em meio à transição para eletrificação e novas tecnologias de mobilidade, a disputa entre modelos industriais distintos tende a se intensificar. De um lado estão montadoras que defendem a produção com alto conteúdo nacional; de outro, fabricantes que priorizam importação de conjuntos e montagem local como forma de acelerar a entrada no mercado.
O debate ocorre em um momento em que o setor automotivo continua sendo um dos pilares da indústria brasileira, responsável por cerca de 20% do PIB industrial e mais de 100 mil empregos diretos, além de uma extensa rede de fornecedores e serviços associados.
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