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26/11/2019 às 22:21h

A roupa indiana

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Angela Leite Xavier

O grupo de Shivam Yoga de Ouro Preto apresentou coreografias e eu fui convidada para contar contos indianos num evento que fazia parte da programação dos Fórum das Artes que acontecia no mês de julho.

Para este momento me emprestaram uma bela roupa indiana, um sári de seda e um véu. Foram duas apresentações e eu fiquei com o sári para lavar antes de devolver.

Como a roupa era muito delicada, lavei a mão e estendi no varal usando dois pregadores. Estava ventando muito, mas fiquei tranquila de que a roupa estava firme no varal.

Mais tarde fui verificar se a roupa estava seca e, qual não foi a minha surpresa ao constatar que ela não estava no varal. Um frio percorreu o meu corpo. Ela não estava no chão. E se ela caiu no quintal do vizinho? Eles têm um cachorro enorme que arrebentaria aquela roupa com os dentes num minuto!

Não! Não pode ser. Eu coloquei a roupa bem presa com dois pregadores! Perguntei a todos em minha casa. Ninguém sabia nada sobre a roupa indiana.

Voltei à minha suspeita inicial. Fui até o quintal com uma cadeira e subi para ver o quintal do vizinho. Havia um rapaz capinando. Perguntei pela roupa. Ele não havia visto nada. Passei os olhos atentos pelo quintal e, para meu desgosto, vi um pano no chão, amontoado e sujo. A cor era a do sári. Pedi ao rapaz para pegar. Era o precioso sári, sujo e rasgado pelos dentes do cachorro, enorme e desajeitado!

Corri ao tanque com o sári como se carregasse uma criança ferida e a lavei com cuidado. Estendi no varal, desta vez usando dez pregadores. Então vi a extensão do estrago. Na parte de trás estava furada, esfiapando. Na frente um rasgão em forma quadrada. Um desastre! Esperei secar e guardei.

À noite, sozinha no meu quarto, peguei linha e agulha e examinei o que poderia ser feito para remediar tal estrago. Lembrei de quando eu restaurava louças inglesas com desenhos minuciosos chineses. Para tirar a marca do quebrado era necessário passar uma massa branca e depois pintar dando continuidade aos traços do desenho. Então fiz o mesmo com o sári. Costurei a mão a parte branca com pontos bem miúdos. Nos desenhos floridos da estampa cuidei de dar sequência aos riscos originais. Costurei a noite toda! Cortei as partes esgarçadas, emendei tudo e fui dormir.

No dia seguinte verifiquei meu trabalho. Praticamente não se viam as emendas! Agora faltava a parte mais difícil: contar ao dono da roupa o que havia acontecido.

Quando eu era criança usava uma estratégia para amenizar as consequências dos malfeitos. Fazia o maior escândalo, dizia que havia feito uma coisa horrível, que seria castigada, que não podia contar e coisas assim. Afinal, quando eu contava, o fato parecia não ter tanta importância e eu escapava do castigo que normalmente me seria infligido.

Usei um recurso semelhante para relatar ao dono do sári o que havia acontecido. Ele sorriu e disse que não me preocupasse, que não tinha importância, que aquele sári não era tal especial etc. Afinal não se viam os estragos e estava tudo bem.

Ufa!



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