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25/03/2019 às 08:55h

Quaresma

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Angela Leite Xavier

A Quaresma começa na Quarta-feira de Cinzas, dia do ritual no qual o sacerdote coloca o pó em forma de cruz na testa do fiel dizendo “Lembra-te que és pó e que ao pó voltarás”. A cinza usada nesse ritual provém da queima dos ramos abençoados da procissão de Ramos do ano anterior, na qual se mistura água benta. Esta data é símbolo da conversão, da mudança de vida e lembra que a vida é efêmera e a morte, certa.

Estes 40 dias são de reflexão, recolhimento, oração, jejum e penitência. Após os 40 dias o cristão está preparado para as comemorações da Semana Santa que culmina no Domingo de Ramos.

Este período lembra os 40 dias que Jesus passou jejuando e meditando no deserto, sendo tentado pelo demônio. Resistiu a tudo e, após este período, Jesus saiu para sua missão.

A cultura popular tinha regras rígidas para este período observadas no interior, na primeira metade do século XX. Por exemplo: na Sexta-feira da Paixão não se varria a casa, nem se lavava a roupa. Não era recomendado pescar, jogar bola ou qualquer outra diversão como cantar, assobiar, ouvir rádio ou coisa similar que demostre alegria. Nem mesmo castigar os filhos que aguardavam temerosos a chegada do Sábado Santo quando as surras devidas eram dadas.

Existiam muitas crendices com relação a este período que começa na Quarta-feira de Cinzas. Os bailes de carnaval eram um divertimento a que todos acorriam entusiasmados. Mas havia muito medo, principalmente na última noite, pois, à meia-noite, segundo a crença geral, seres horrendos vagavam pelas ruas para perder as almas. Tinham como coisa certa que, no último dia de carnaval, o capeta aparecia no salão no momento de encerrar o baile. Caso conhecido é o da moça que dançou com um belo rapaz sem perceber que ele tinha pés de bode e, à meia noite, ele se transformou num ser demoníaco desaparecendo, em seguida, numa grossa nuvem de fumaça cheirando a enxofre.

Ainda segundo a crença popular, a Quaresma é a época propícia para a aparição da Mula-sem-cabeça. Esse ser sai pelas ruas da cidade nas sextas-feiras da Quaresma e deve visitar sete paróquias em cada noite, por isso está sempre correndo. E uma coisa é certa: se você vir uma mulher mancando nos sábados de Quaresma é forte indício de que virou Mula no dia anterior.

Nas sextas-feiras da Quaresma eram realizadas procissões pela madrugada quando os penitentes se supliciavam e seus gemidos ecoarem pelas noites escuras das velhas cidades mineiras. Havia ainda batidas de bastões na calçada e correntes arrastadas. Impressionados com estas procissões as pessoas se enchiam de medo, fato que originou muitas histórias contadas até nossos dias.

A mais conhecida em Ouro Preto e outras cidades históricas de Minas Gerais é a Procissão das Almas. Contam que uma senhora muito curiosa e fofoqueira, certa noite de Sexta-feira de Quaresma, ouviu ruído de passos na rua, vozes orando e matracas. Intrigada, abriu a janela e viu passar uma procissão. As pessoas iam encapuçadas trazendo velas acesas. Ela perguntou o que era aquilo. Uma penitente lhe entregou uma vela dizendo: “Essa é a procissão das almas! Não é para a senhora!”. A mulher segurou a vela paralisada pelo medo. Na manhã seguinte seus familiares a encontraram, ainda na janela, o olhar perdido e um osso de canela humana nas mãos.

Os rituais da Igreja Católica na Quaresma são de purificação e fé. Hoje não existe mais este medo e a crença nestes seres horríveis que povoavam as noites de Quaresma na primeira metade do século XX.

Ficam os relatos dos antigos. Para curiosidade ou medo dos leitores.




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