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01/10/2020 às 14:33h

Obras raras Parte I / XII

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De repente, eu estava ali, estático, incapaz de reverter a situação na qual me encontrava. O sofá, que por ora me acolhia, mostrava-se bastante confortável. Tentei compreender a posição do meu corpo sobre ele, mas não consegui. Uma força estranha e desconhecida arrastava-me a uma área interna e profunda que me desconectava, vez ou outra, da realidade. Com esforço, respirei lentamente e tentei ter consciência do acontecido. Tive um leve apagão, pensei. Um desses em que a mente continua acessando o interruptor da realidade, embora o corpo estivesse num caos emocional, abatido. Por fim, entreguei-me por completo... Sentia a paralisação total de partes do meu corpo, como tronco, pernas, braços, mãos, dedos... Fiquei um tempo absorto em meio ao que parecia ser um pesadelo. Minha mente não contribuía para que o quadro pudesse ser revertido. Uma sucessão de imagens brotava na minha memória... Situações vividas recentemente, outras longínquas, fisionomias de pessoas, alguns objetos, paisagens... Certo cansaço mental apoderou-se de mim. Sem resistência, abandonei-me ao abismo e à própria sorte...

De súbito, uma voz suave soou pelo ambiente onde eu estava. Com grande esforço, tentei recobrar a consciência. Fracassei. Minha mente divagava, inconscientemente e, naquele instante, ditava regras ao nosso próprio corpo, minha propriedade, sua morada.

A voz aveludada ressoou novamente. Dessa vez, eu compreendi as palavras. Alguém me perguntava se estava tudo bem comigo. Ao entender aquela mensagem, tive uma vontade imensa de dizer que não. Não estava tudo bem. Mas não consegui pronunciar uma só palavra. Juntei um pouquinho de lucidez que ainda resistia em mim e, num esforço assombroso, ousei abrir os olhos minimamente, quando me deparei com uma imagem surreal. Privado de minhas feições, não pude expressar no rosto ou pela voz dois sentimentos: surpresa e perplexidade. A voz repetiu a pergunta. Refiz-me emocionalmente. Tentei demonstrar um pedido de socorro, mas estava inerte demais para essa tarefa. A solução foi tentar mover um lado da boca, buscando desenhar um sinal de mal-estar. Nada. A pequena abertura nos meus olhos desanuviou minha visão. Olhei fixamente, com os olhos semiabertos, quase por uma fenda entre as pálpebras, para ter certeza do que via. Como era possível!? A voz aveludada fez outra pergunta. Dessa vez, não se referiu ao meu estado de saúde mental ou físico. Perguntou se poderia se sentar no estofado, onde meu corpo estava. Insisti com o movimento dos lábios numa tentativa de resposta... Nada. Fitei um ponto qualquer da sala, tentando passar uma mensagem. Nem sei se fui realmente compreendido. O fato é que, diante dos meus olhos semiabertos, a imagem de São José, esculpida em cerâmica e queimada a novecentos graus, se movimentava diante de mim. Pensei ser uma miragem, obviamente. O santo mais silencioso da igreja católica tentava estabelecer um diálogo comigo. Inacreditável. Ignorei a aparição e refleti, brevemente, se sentia saudade da ceramista Eloísa Xavier, autora da bela escultura. Eloísa havia feito a peça exclusivamente para mim, tempos atrás, quando eu fechei um ciclo de trabalho do qual ela fazia parte. E me presenteou, dizendo que São José era um carpinteiro de almas e que eu, sendo um carpinteiro das palavras, usasse a literatura para apaziguar conflitos causados pelas mazelas humanas. Inexplicavelmente, a escultura agigantou-se. A seu modo, tornou-se viva e conversava comigo. Como podia aquilo? Certamente, eu estava num sono profundo. A qualquer momento, acordaria. Depois de me debater com braços e pernas, de retorcer o corpo para me despertar, acordaria. Num dado momento, os braços da escultura se moveram. Suas vestimentas balançaram-se de tal jeito que uma camada de poeira de terra de formigueiro se espalhou pelo ambiente. O inesperado surpreendeu até mesmo São José, que riu serenamente diante da artimanha da matéria da qual era feito. Uma de suas mãos veio em direção ao meu peito. Quando ele a encostou em mim, senti o coração acelerado. Tive receio do que poderia advir de uma taquicardia. Mas São José moveu seus lábios, sorrindo levemente, acalmando-me. O movimento de sua boca jogou mais poeira pelo ar. A poeira provocou-me tosse, e não consegui controlar o regozijo do corpo. Por fim, o santo me disse, em tom de cochicho, como numa confissão, que tudo ficaria bem. Era apenas uma questão de tempo. Depois se levantou bruscamente. Sua atitude inesperada deixou o ambiente ainda mais empoeirado. O ar ficou rarefeito. Suas vestes se moveram de um jeito que as sobras de modelagem na peça, deixadas pela artista quando ela a esculpiu, caíram pelo chão. O piso da sala ficou tal qual deve ficar o ateliê da artista, coberto por fragmentos de argila, por sobras retiradas das esculturas religiosas que ela modela com maestria.

...Continua.


José Roberto Pereira

Escritor / Artes Cênicas




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