Capa da Página Obras raras - Parte II / XII - Cultura - JC Notícias Capa da Página

Icone previsão PARÁ DE MINAS - 12º MIN 25º MAX

Cadastre seu e-mail e receba nossas novidades

Icone IconeNotícias - Cultura

30/12/2020 às 16:44h

Obras raras Parte II / XII

Facebook


Esforcei-me o quanto podia e olhei, com restrição, para o lugar, sobre meu peito, onde São José colocara uma das mãos. A poeira não me deixou ter certeza, mas pude perceber fragmentos da impressão de sua mão sobre minha camisa. Instantaneamente, tive medo. Seria real aquilo!? Fiquei confuso, tentando entender a fronteira entre o sonho e a realidade. Na minha infância, eu costumava passar horas divagando, parado, saboreando histórias inventadas. Minhas fantasias eram, para mim, como se fossem reais, quase palpáveis. Por diversas vezes, fui recriminado por meus pais, que me sacolejavam, trazendo-me à realidade. Minha mente sempre foi fértil e ativa, concluí, em pensamentos. Busquei, à época, sob custódia paterna, ajuda profissional. Sem sucesso. O diagnóstico era sempre o mesmo: mente criativa. Coisa da idade, diziam. Não acreditava que o desconforto infantil havia voltado com aquele realismo fantástico no qual me encontrava. Tentei mover uma das mãos para tocar na marca que São José deixara sobre minha camisa. Meu corpo permanecia sem comando. Esforcei-me para olhar São José nos olhos e tentar pedir socorro. Consegui vislumbrar a poeira ainda suspensa no ar. Já não enxergava sua imagem imaculada. Da forma como ele apareceu, desapareceu, misteriosamente. As evidências de sua passagem continuavam bailando pelo ar, impregnando o ambiente.

Fechei os olhos e tentei respirar profundamente. Mas fui surpreendido por uma revoada de pássaros sobre mim. A princípio, o ruflar das asas assustou-me. Eu me sentia impotente. A situação deixava as emoções à flor da pele. O barulho das asas pareceu-me uma sentença. Desconfiei que meu fim tivesse chegado. Acalmei-me. Fiz todo o processo de abrir os olhos novamente, com muito esforço. Os pássaros, também modelados em argila, haviam se soltado da escultura de São Francisco que estava na estante, do artista Eduardo Rodrigues, e ganhado a imensidão da sala. O agitado bater das asas enchia todo o ambiente de fuligem de barro queimado a novecentos graus. Confesso que fiquei encantado com os voos. As aves atravessavam a estante vazada, pousavam na moldura de um quadro e voavam novamente. Mostravam-se livres, alegres e indomáveis. A liberdade sempre foi cobiçada por qualquer ser vivo. O direito de ir e vir ainda é utopia em muitas sociedades. Eu sentia na pele o desejo de ser livre. Vendo os pássaros rasgando o ar, tive uma sensação aflitiva de aprisionamento. Pensei em muitas coisas que me aprisionavam, como o medo, a raiva, a preguiça, a inveja e as paixões. A própria sociedade em que vivemos é um modelo sofisticado de prisão. Fiquei chocado com o diagnóstico que concluía precariamente. Dei-me conta de que ninguém é verdadeiramente livre. Nem eu. Um sistema bem construído ao longo dos séculos foi nos aprisionando discretamente uns aos outros. A afirmação dita por um filósofo da antiguidade de que “ninguém é uma ilha” evidenciava o que minha mente descortinava.

Dissipei aqueles pensamentos. Não tinha a menor vontade de gastar minhas poucas energias com assuntos sociais, antropofágicos, filosóficos ou econômicos. Preparei-me para uma nova tentativa de comando ao meu corpo. Mas fui surpreendido pelos dejetos de um dos pássaros. Não acreditei que aquilo estava acontecendo. Era surreal demais para crer. Levar a mão à testa para confirmar a cagada estava descartado. Concentrei-me no alvo atingido, minha testa, e esforcei-me para me certificar... Putz!!! Pareceu-me verdade. Em um voo, um dos pássaros defecou sobre mim. Minha testa virou alvo certeiro da ave inconveniente. Situação detestável, humilhante. O dejeto, quer dizer, o barro, ainda úmido, aguado demais para a modelagem, marcou-me como uma cicatriz. Como pode? Aqueles pássaros se desprenderam das imagens de São Francisco para isso? Fiquei aliviado por estar só, diante daquele desconforto nojento. Seria muito mais humilhante caso houvesse alguém dividindo o espaço comigo. Usando de covardia, a pessoa poderia me desdenhar. Muitos sentem prazer diante da desgraça alheia. Tenho sorte de estar só, concluí. Caso minha avó paterna, Adelina, estivesse a par do acontecido, diria: “dos males, o melhor”. Seu bordão se aplicava perfeitamente. Por fortuna, a crosta de barro bateu na minha testa e ali se fixou, embora estivesse mole. Não escorreu pela fronte nem pelos meus olhos, o que seria castigo severo aplicado à minha pessoa. Umas poucas gotas de barro se espalharam próximo à área capilar devido à violência do choque contra a pele. Outras atingiram o nariz e as bochechas.

...Continua.

José Roberto Pereira - Escritor / Artes Cênicas



Galeria de fotos

Clique nas imagens para ampliar: