27/02/2026 às 09:36h
A promessa de emagrecimento rápido, impulsionada pela pressão estética e pelo culto ao corpo magro tanto nas redes sociais quanto no cotidiano, pode estar alimentando também um mercado clandestino de medicamentos em Minas Gerais. O jornal O TEMPO recebeu denúncias sobre a venda irregular de medicamentos emagrecedores no estado. Um dos casos envolve uma biomédica de Belo Horizonte que divulga, abertamente nas redes sociais, a comercialização de tirzepatida. A substância utilizada no tratamento do diabetes tipo 2 é indicada também para controle de peso. Porém, só pode ser vendida sob prescrição médica. Além disso, várias marcas disponíveis nesse comércio ilegal não são autorizadas no Brasil e podem apresentar sérios riscos à saúde do paciente.
Nos stories, ela divulga a venda dos medicamentos e os horários de entrega. Nossa reportagem se passou por um dos compradores e conversou com a influencer. Ela então apresentou uma tabela de preços em que oferece seringas com doses que variam de 2,5 mg a 15 mg, com valores entre R$ 200 e R$ 500. A aplicação, segundo a própria anunciante, fica sob responsabilidade do comprador. O medicamento, conforme divulgado, teria origem no Paraguai. O caso não é isolado. Em diversas apreensões, seja da Polícia Civil ou Polícia Federal é possível perceber um padrão da origem e de como funciona a venda desses insumos.
A rota do Paraguai e as apreensões recentes
De acordo com a PCMG, a maioria dos insumos contrabandeados tem origem no Paraguai. Pessoas atravessam a fronteira para adquirir medicamentos mais baratos e sem exigência de receita médica, revendendo-os posteriormente no Brasil.
Casos recentes reforçam a dimensão do problema. No dia 19 de fevereiro, a Polícia Federal deflagrou a Operação Good Shape, em Divinópolis, com apoio da Polícia Civil de Alpinópolis. Duas mulheres foram presas, suspeitas de integrar uma rede de importação e distribuição ilegal de medicamentos emagrecedores. Uma das investigadas foi localizada em Ciudad del Este, no Paraguai, e será extraditada. A Justiça Federal determinou o bloqueio de bens de até R$ 500 mil e a suspensão das redes sociais utilizadas na comercialização. Segundo a investigação, os medicamentos eram de marcas cuja importação é proibida no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), por não possuírem registro e controle oficial de qualidade, segurança e eficácia.
Na última terça-feira (24), uma operação conjunta da Polícia Militar e da Vigilância Sanitária encontrou medicamentos para emagrecimento e anabolizantes escondidos em uma gaveta trancada de uma academia em Patos de Minas. Cerca de 30 frascos injetáveis com tirzepatida, importados do Paraguai, além de mais de 200 comprimidos de esteroides sintéticos, foram apreendidos. O caso também foi encaminhado à Polícia Federal para investigação de possível contrabando ou descaminho.
Em outra ocorrência, ainda no início deste mês, policiais rodoviários federais apreenderam 200 ampolas de tirzepatida e 32 ampolas de esteroides anabolizantes transportadas ilegalmente. O condutor alegou uso próprio, mas a suspeita é de revenda online.O material, segundo a investigação, teria sido buscado em Foz do Iguaçu (PR) e seria revendido pela internet. O condutor foi preso em flagrante e encaminhado à Polícia Federal. A legislação brasileira prevê penas que podem chegar a 15 anos de reclusão para crimes contra a saúde pública.
Riscos à saúde: do vômito intratável à UTI
Especialistas alertam que o consumo de medicamentos contrabandeados amplia significativamente os riscos à saúde. O gastroenterologista Dr. Mauro Lúcio Jácome explica que a ausência de controle de temperatura, essencial para proteínas como a tirzepatida, e a incerteza sobre o conteúdo da substância são fatores críticos. “Medicamentos clandestinos frequentemente contêm doses muito maiores ou menores do princípio ativo, ou substâncias proibidas (como anfetaminas) para forçar a perda de peso, podendo por exemplo levar a arritmias e surtos psicóticos”, explica.
O especialista ainda alerta sobre a falta de conhecimento sobre a quantidade a ser aplicada .Ele explica que o escalonamento da dose, geralmente iniciado em 2,5 mg, é fundamental para adaptação do organismo. “Pular etapas pode levar ao que chamamos de vômito intratável, com risco de internação”, afirma.
A médica Bruna Marisa, pós-graduada em endocrinologia, acrescenta que a adulteração é uma possibilidade real, especialmente por se tratar de um medicamento de alto custo. Substâncias como anestésicos podem ser adicionadas para baratear o produto, elevando o risco de complicações cardíacas. Ela também alerta para o risco de contaminação microbiológica, incluindo infecções por bactérias como Escherichia coli e Salmonella. “O papel da prescrição médica é essencial. É saber a dose que vai usar, como vai ser a progressão de dose, quais os efeitos colaterais. Em caso de efeito colateral, o que o paciente deve fazer. Por isso é essencial o acompanhamento médico relacionado ao uso dessa medicação.”
Ambos os especialistas destacam que o uso sem acompanhamento médico pode mascarar doenças graves, como câncer gástrico ou pancreatite, além de provocar efeitos colaterais intensos, como náuseas, vômitos persistentes, desidratação e insuficiência renal aguda. Casos de internação em UTI por complicações associadas ao uso inadequado já foram registrados.
A cultura do corpo magro e o impacto na segurança pública
O crescimento desse mercado ilegal não ocorre isoladamente. Ele dialoga com uma cultura que valoriza resultados rápidos e corpos padronizados, frequentemente impulsionada por influenciadores digitais e promessas de transformação acelerada.
Ao mesmo tempo, o fenômeno tem reflexos na segurança pública. O contrabando de medicamentos fortalece redes criminosas, movimenta recursos ilícitos e sobrecarrega os sistemas de fiscalização sanitária e policial. O bloqueio de redes sociais e o sequestro de bens na Operação Good Shape evidenciam que a prática já opera em escala organizada.
No Brasil, apenas medicamentos registrados na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) podem ser comercializados, e a tirzepatida exige prescrição médica. Especialistas reforçam que a avaliação clínica prévia é fundamental para determinar se o paciente possui condições cardíacas, renais ou pancreáticas compatíveis com o uso da substância, além de garantir o escalonamento adequado da dose.
Enquanto a busca pelo emagrecimento rápido alimenta um mercado paralelo em expansão, autoridades e profissionais de saúde alertam: o risco pode custar mais caro do que o preço anunciado nas redes sociais.
Fonte: O Tempo
Foto: Divulgação / PF | Reprodução / Redes Sociais
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