08/09/2026 às 09:01h
O transtorno afetivo bipolar tipo 2, frequentemente considerado uma forma mais branda da doença, pode estar associado a consequências graves para a saúde. Um estudo com mais de 11 mil participantes, publicado no JAMA Network Open, mostra que pessoas com o transtorno têm risco 60% maior de morrer precocemente em comparação a indivíduos da mesma idade sem a condição.
Entre os achados que mais chamam atenção está o risco de morte por suicídio, mais de seis vezes superior entre indivíduos com essa condição. “Esse é o pior desfecho possível para qualquer transtorno mental. Quanto menos tratamento, suporte e medidas comportamentais, maior o risco”, alerta o psiquiatra Ricardo Feldman, do Einstein Hospital Israelita. O aumento da mortalidade também foi observado por doenças cardiovasculares e metabólicas, além de causas não naturais, como acidentes.
O transtorno afetivo bipolar é uma condição psiquiátrica marcada por alterações intensas de humor. Pessoas com a condição alternam episódios depressivos com fases de hipomania ou mania, em que há elevação do humor e mudanças importantes no comportamento.
A diferença entre os dois principais tipos está justamente na intensidade. No transtorno bipolar tipo 1, os episódios de mania são mais graves e podem incluir sintomas psicóticos, como delírios e alucinações. Já no tipo 2, há momentos de hipomania, considerada uma versão mais branda da mania, associados a quadros depressivos, muitas vezes prolongados.
“Na hipomania, não há sintomas psicóticos. Por isso, durante muito tempo, o bipolar tipo 2 foi considerado menos grave. Mas hoje entendemos que ele pode trazer enorme sofrimento e impacto funcional”, afirma o psiquiatra.
A prevalência estimada do transtorno bipolar varia entre 1% e 3% da população. Mas, diante da possibilidade de um subdiagnóstico, pode ser que a condição atinja até 8% das pessoas. O diagnóstico é clínico e depende da identificação dos episódios de mania ou hipomania. O problema é que o transtorno bipolar tipo 2 frequentemente se confunde com depressão, ansiedade ou outras condições psiquiátricas, o que pode atrasar o tratamento.
“O tipo 2 ainda é muito subdiagnosticado. Muitas vezes, o paciente passa anos sendo tratado apenas como depressão unipolar, até apresentar um episódio de hipomania. É importante diferenciar porque alguns tratamentos utilizados para depressão podem trazer riscos para pacientes com depressão bipolar”, adverte o médico do Einstein. O atraso no diagnóstico aumenta o risco de cronificação da doença e de complicações clínicas e psiquiátricas. “Quanto mais longe do tratamento psiquiátrico, piores os desfechos”.
Para Feldman, o aumento do risco de morte entre pacientes com transtorno bipolar tipo 2 não surpreende. “A gente observa maior risco de mortalidade em praticamente todos os transtornos mentais. Existem vários fatores envolvidos, desde o impacto da doença mental não tratada até as comorbidades clínicas”, ressalta.
Em geral, também são mais frequentes entre essas pessoas quadros de obesidade, doenças metabólicas, uso de substâncias como álcool e drogas, e outras condições que comprometem a saúde física. Além disso, o comportamento impulsivo associado às fases de hipomania pode aumentar o risco de acidentes, por exemplo. “As questões não naturais acontecem por causa desse comportamento de risco, dessa alteração de humor que causa impulsividade, agitação e aceleração”, explica o especialista.
Para reduzir os desfechos negativos da doença, é importante uma abordagem ampla e integrada, que vá além do tratamento medicamentoso. O cuidado inclui terapia, atividade física, sono adequado, alimentação equilibrada, fortalecimento da rede de apoio e acompanhamento contínuo da saúde mental e física.
“O que precisamos fazer é aumentar o acesso ao tratamento e capacitar profissionais para identificar esses quadros mais cedo. Também devemos fortalecer políticas de promoção de saúde mental, ampliar serviços comunitários e conscientizar a população de que transtornos mentais são doenças que precisam de cuidado contínuo”, conclui Ricardo Feldman.
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