08/09/2026 às 09:24h
Ao se deparar com propagandas com designs amadores, o mercado publicitário repete uma piada pronta: “foi o sobrinho do dono quem fez”. Em 2026, ela ganha uma nova roupagem. Sai o sobrinho, entra a inteligência artificial. As plataformas de IA se tornaram ferramentas, muitas vezes sem nenhum custo, que ajudam pequenos empreendedores a produzir folhetos, peças para redes sociais e até cardápios.
Nos poucos anos desde que a IA foi popularizada – o ChatGPT foi disponibilizado ao grande público no fim de 2022 –, ela se espalhou pelos pequenos negócios. Em Minas Gerais, 56% dos micro e pequenos empreendedores dizem utilizar a tecnologia em alguma área do negócio, segundo pesquisa do Sebrae Minas. Quase 30% deles a utilizam para produzir conteúdo para redes sociais, e 27%, para marketing e publicidade.
Por um lado, as ferramentas agilizam um trabalho que, de outra forma, demandaria tempo e dinheiro. Por outro, criticam profissionais do mercado de tecnologia, correm o risco de apagar a identidade dos negócios e inundar a internet com imagens indistinguíveis entre si.
As plataformas produzem imagens que seguem um padrão. A reportagem compilou exemplos de peças disparadas em grupos de WhatsApp e publicadas nas redes sociais. Entre anúncios de chaveiro, marmitas e – em pleno 2026 – morangos do amor, há mais semelhanças do que diferenças. Geralmente, os anúncios feitos por IA agrupam muitas informações em um curto espaço, usam ilustrações de pratos ou produtos que se parecem mais com animações do que fotografias e empregam grafismos para ocupar os espaços vazios ao redor das palavras.
Para a coordenadora de pesquisa do Instituto de Referência Internet e Sociedade (Iris), Fernanda Rodrigues, é natural que as imagens se pareçam, afinal, costumam ser produzidas pelas mesmas plataformas de IA. É como pedir que o mesmo designer crie o material de todas as empresas usando a mesma base de inspiração. “Temos uma hegemonia de alguns grandes modelos de linguagem. É muito esperado que os empreendedores usem os mais famosos. Em segundo lugar, sem maiores detalhes sobre como o anúncio deve ser feito, a tendência é que a tecnologia opere a partir de um padrão”, explica.
Sem comandos bastante específicos sobre o que se espera do resultado, o empreendedor local recebe da IA um resultado genérico. E vindo de muito longe, acrescenta a coordenadora da iniciativa de capacitação de mulheres negras em tecnologia PretaLab, Amanda Silva. “A IA não é neutra. É o homem branco do Vale do Silício que está criando essa ferramenta e produzindo para o mundo inteiro. Os modelos de IA generativa aprendem com imagens coletadas da internet, então fazem um design comercial, ocidental, norte-americano ou europeu. A identidade visual do Vale do Silício apaga nossa pluralidade regional”, expõe ela.
Silva e as demais fontes consultadas pela reportagem concordam que a IA é um instrumento valioso para quem não tem recursos para pagar serviços profissionais. Mas, argumenta a analista do Sebrae Carla Gobb, o uso displicente arrisca enfraquecer um dos maiores trunfos dos pequenos negócios: a singularidade. “Fica tudo muito igual. O consumidor pode acabar confundindo, porque é tudo muito parecido. Uma vantagem dos pequenos negócios é a diferenciação. Vemos esses anúncios e nem sabemos de onde são”, diz.
Ela avalia que, antes da IA, os anúncios de pequenos negócios muitas vezes tinham um amadorismo na forma. Agora, a forma ganhou um ar de profissionalismo, porém o amadorismo permaneceu na concepção dessas peças.
Já para alguns dos próprios empreendedores que utilizam a tecnologia, isso não é um problema. Sócia do Bar da Vera Baianeira, que funciona no Paraíso, na região Leste de Belo Horizonte, Tairiny Silva utiliza a versão gratuita do ChatGPT para anunciar marmitas. Os desenhos têm a mesma personalidade de dezenas de outros desse tipo, mas ela garante que isso não afeta a clientela.
Pelo contrário, o uso de IA tem favorecido o negócio: “A gente pagava para fazer folhetos, mas isso ficou um pouco fora de moda. O Chat é muito mais rápido e prático. Hoje em dia, tudo é IA. A maior parte das pessoas está usando, então não tem como ser exclusivo. Não acho que faz diferença para o cliente, porque o que define o negócio é a qualidade”, conta.
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