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07/12/2021 às 21:47h

Histórias entre parêntesis

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No dia 11 de agosto (dia do Advogado) passado coincidiu com o ápice da chuva de meteoros que anualmente atinge a Terra. Este fenômeno recebeu desde priscas eras o nome de Perseidas. Foi quando um amigo perguntou-me o que significava esta palavra. Para a resposta caí no meu vício de sempre: não responder imediatamente, mas antes, dar o contexto do que se pergunta. Acho que poucos vão querer conversar comigo depois de ler este texto!

Respondi que consta da história, que no templo de Atena (seu nome grego: Minerva, e é uma das 12 divindades do Olimpo; na infância ela brincava com sua melhor amiga e inadvertidamente a matou, daí em diante passou a usar o nome desta amiga antes do seu, denominando-se Pala Atena) existia uma lindíssima mulher. Tão linda que, certa feita, Poseidon (sabemos que ele é o “Rei dos Mares, mas para nossa conversa importa dizer que ele era o único que não temia Medusa) a fez sair do templo para estar com ela numa noite de amor. Atenas, muito enfurecida, a transforma em uma Górgona (dizem que ela tinha outras duas irmãs Esteno e Euriale; não confundir com as Gréias, aquelas que tinham apenas um olho e um dente para ser partilhado entre as três que eram cegas; também não confundir com as Parcas, que são conhecidas por Moiras, que teciam o fio da vida de cada ser humano). Toda a beleza foi retirada, e Medusa foi transformada: corpo lindo, mas de rosto medonho, voz rouca (sua voz era gutural como as demais Górgonas, um som grosso, muito grave e rouco, saído do fundo da garganta – daí a expressão gogó) e cabelos de serpente (serpentes nunca foram bem quistas na mitologia). Quem a visse seria transformado em pedra, até mesmo se fosse um deus. Ela foi banida para uma região próxima à entrada do Tártaro (um deserto de árvores mortas e cheio de estátuas de homens que tentaram captura-la; até mesmo os animais viravam pedra ao olhar para ela). Pouco se sabe mais dela. Certa feita li uma coisa muito interessante: que ela era imortal, mas mesmo depois de morta quem olhasse para seus olhos viraria pedra! Meio contraditório isto. Mas parece que o autor (Pausânias foi um geografo e historiador do século II da era cristã que escreveu uma extensa obra chamada “A Descrição da Grécia” que muito contribui com o que sabemos hoje de mitologia) queria dizer que ela morreria, mas seus poderes não (na mitologia grega e romana a morte não tem o mesmo significado cristão que adotamos hoje). Somente ela e Atlas (sabemos que Atlas é quem sustenta os céus e a Terra nas costas, mas um dia ele negou abrigo a Perseu, e depois, como vingança, ele lhe mostrou a cabeça da Medusa e o transformou numa gigantesca montanha; os livros que possuem mapas são denominados Altas em sua homenagem) sabiam a localização os Jardins das Espérides onde estavam os pomos de ouro.

Distante dali, em Argos (de onde Jasão partiu em barcos com os Argonautas em busca do Velocino de Ouro, que é que a pele – de ouro mesmo – de um carneiro), o Rei Acrísio recebeu uma profecia onde o seu neto o mataria. Tendo somente uma filha Dânae, ele a acorrenta e a prende numa câmara inacessível. Zeus vendo esta injustiça, foi ter com Dânae, mas como não podia se apresentar na sua real forma aos humanos (por irradiar uma luz muito forte por causa de seu imenso poder, Zeus deveria se transformar em algo para estar com as mulheres – e alguns homens – na Terra), metamorfoseou-se numa chuva de ouro, e deitou-se com ela. Daí nasce Perseu. Perseu, ao contrário de Medusa é um mito cheio de versões e histórias. Somente Hércules o ultrapassa em número de feitos. (Já publiquei aqui os Doze Trabalhos de Hércules, e vários outros que são menos conhecidos, mas muito importantes.

É sabido que Perseu vai em busca de Medusa e recebe de Hermes (deus mensageiro; sempre que alguém – humano ou deus – estava em problemas, Hermes aparecia para dar uma ajuda na inteligência das pessoas para estas situações, daí a palavra “hermenêutica” que significa interpretação) as necessárias armas para matá-la: empresta suas sandálias aladas para chegar no local onde estava (Hermes mesmo usava estas sandálias para ir no mundo dos mortos e voltar levando e trazendo mensagens); uma espada forjada por Hefesto (que além das sandálias, também forjou as armas de todos os demais deuses, seu nome romano é Vulcano, daí origina a palavra vulcão referindo-se a sua incandescente forja); e um escudo que um dia pertenceu a Hades (deus do mundo dos mortos, não dos infernos! Todos mortos iriam para os domínios de Hades, o final do Tártaro estava seu castelo chamado Érebo). Ele também tinha um capacete que o deixa invisível, segundo consta ofertado por Atenas (este capacete em Atenas significava sua sabedoria e proteção na guerra). Guiando-se pelo reflexo da Medusa no escudo Perseu a decapita. Entre idas e vindas Perseu procurou refazer a amizade com o avô, que fugia dele por medo da profecia. Numa cidade da Tessália (hoje conhecida como Tessalônica) durante os jogos (os jogos não eram realizados somente em Olímpia, que deu o nome às Olimpíadas, mas por toda a região grega os jogos eram praticados regularmente) ele arremessa uma flecha (ou disco) e erra o alvo, mas atinge um expectador. E a profecia se concretiza: o expectador era seu avô, Acrísio (que estava ali em fuga do neto, disfarçado de cidadão comum).

Depois disto ele entrega a cabeça da Medusa para Atenas.

O pintor italiano Caravaggio (que na verdade se chamava Michelangelo Merisi, e que não deve ser confundido com o igualmente famoso Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni. Caravaggio é a cidade onde nasceu o pintor a que me refiro) desenhou a imagem da Medusa em um escudo de madeira. Tive a felicidade de estar diante desta obra (e outras de Caravaggio) que mesmo não passando de 50cm de diâmetro, muito me emocionou.

A morte de Perseu é cheia de versões: a mais antiga é que morreu numa traição de emboscada armada por um inimigo de seu pai. Noutra que morreu de velho. E uma muito interessante, mas pouco provável já que data de alguns séculos depois de Cristo é que ele desafiou um rei para um combate, e mostrou-lhe a cabeça de Medusa, o adversário riu e nada aconteceu. Mas este mito duvidoso diz que o combatente não enxergava muito bem e assim, a cabeça da Medusa não lhe produziu efeito algum. E quando Perseu foi ver no rosto da Medusa o que tinha acontecido, petrificou-se. Mas uma coisa é certa nos antigos escritos: Zeus chorou lágrimas de ouro quando seu filho morreu.

Desde a astronomia antiga existe uma constelação que é dedicada a Perseu e ela fica na mesma direção de uma linha de meteoros deixado por um cometa que seria a representação de Zeus.

Assim sendo depois de tanto falar (e com tantos parêntesis) eu disse: as Perseidas são os brilhos de uma chuva de meteoros, uma homenagem ao nascimento e morte de Perseu.

Por Ronaldo Galvão


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