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28/01/2021 às 13:56h

NOSSAS REFERÊNCIAS HISTÓRICAS

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Angela Leite Xavier

Por que não podemos expandir nossas cidades e modernizá-las na horizontal deixando a história de sua origem intacta?

Imaginemos que maravilha seria se todas as cidades preservassem sua origem, seu começo com as casas, o arruamento e tudo mais, intactos? Nada disto impediria o seu crescimento e modernidade, mas teríamos a riqueza de nossa história. A riqueza histórica e cultural de cada comunidade seria enorme. O sentimento de pertencimento estaria vivo nas novas gerações. Um jovem diante da casa que pertencera a seu bisavô teria muitas histórias para contar. É construir o futuro sobre bases sólidas, sabendo de onde viemos. E uma pesquisa atual precisa de novo olhar que inclui fatos e personagens invisibilizados pelos olhares anteriores.

Os valores, os saberes dos povos originários desta terra e daqueles que foram trazidos da África deixam a obscuridade e se mostram através de novas pesquisas feitas com o olhar mais abrangente e real.

As manifestações religiosas indígenas e africanas foram proibidas como forma de dominação. Sem sua cultura própria o outro é obrigado a aceitar a cultura do dominador e assim fica subjugado aos seus valores.

Ouvi de um indígena da etnia Xacriabá que os maiores entre eles saiam para praticar seus rituais no meio da mata para não serem impedidos pelos brancos. E cada um pisava sobre as pegadas do primeiro para não despertar suspeitas. Assim eles continuavam com seus costumes evitando serem descobertos e reprimidos.

Os costumes e crenças dos africanos trazidos para cá como escravizados foram duramente reprimidos até início do século XX. Os que vieram eram de povos diferentes e de regiões diversas do grande continente chamado África. Entre eles mesmos não conseguiam se entender.

Aqui em Minas os negros passaram também a pertencer a Irmandades laicas como todos na sociedade colonial. Foi a forma como a sociedade se organizou. Criaram as Irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos onde se ajudavam, onde tinham seu lugar na sociedade e podiam festejar, à sua maneira, os santos negros como santa Efigênia, São Benedito, São Elesbão e outros.

O congado, ritual negro mais popular nas Minas, foi proibido no início do século XX sob o argumento de que não eram rituais da Igreja Católica. Assim, por muitos anos foram proibidos os congados em muitas arquidioceses.

Nos anos 70, percorrendo os distritos de Ouro Preto e Mariana fui a Catas Altas e, dentro da Matriz uma senhora que cuidava da igreja se aproximou. Queria mostrar uma coroa e contou que ela, jovem ainda, seria a rainha do congado do povoado, mas como foi proibido, o congado não saiu. Ela guardava com carinho e pesar aquela coroa que não havia podido usar.

Esta proibição terminou nos anos 70 com o Concílio Vaticano II que considerou válidas todas as manifestações em homenagem a Nossa Senhora e santos da Igreja.

Lembro de ter visto, na minha infância, belíssimas apresentações de grupos de congado em Pará de Minas. Eu era pequena e havia muita gente na rua Direita para ver os dançantes. Eu estava com minha mãe na farmácia Santa Maria do tio Raimundo. O Luís, que era um jovem, me colocou nos ombros e eu pude ver. Muitos negros vestiam roupas coloridas cheias de espelhinhos que brilhavam, chapéus de onde saiam fitas de todas as cores e amarrados aos pés, latinhas cheias de pequenas pedras que davam o ritmo. Tinham nas mãos grandes varas e num dado momento, batiam suas varas que faziam um barulho de luta. Era inesquecível!

Lembro também de uma canção que minha mãe cantava e dizia que era do congado:

“Minha sereia, sereia do mar, baleia grande quer me matar, ai, ai!” E ao dizer isto jogavam a cabeça para trás.

Nossa história foi narrada, no início, do ponto de vista do português e depois, daqueles que estavam no poder. Por isto considero da maior importância, ter um olhar a partir daqueles que foram invisibilizados nos relatos históricos: os indígenas, povos originários desta terra e os africanos e seus descendentes. Meu interesse é contar a história do ponto de vista do povo.



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